­noso, cu­ja ex­trem­idade in­fe­ri­or se ag­ita­va no es­paço co­mo se fos­se balouça­da pe­lo ven­to.

  -Sen­hor Je­sus, mis­er­icór­dia! -bradaram os mar­in­heiros, cain­do de joel­hos no con­vés. 

  -Mis­er­icór­dia, que se aca­ba o mun­do! 

  O padre Jerón­imo da Con­ceição dis­pun­ha-​se a dar ab­solvição ger­al àque­les pecadores, quan­do Pêro Doura­do acud­iu, rindo, a sossegar os es­píri­tos da mar­in­hagem. 

  O vel­ho pi­lo­to era sabedor da sua arte, e não su­per­sti­cioso. 

  -Ami­gos -disse ele com voz se­gu­ra -, aqui­lo é um cometa; não faz dano aos home­ns do mar. An­da longe, e não se mete connosco. 

  Pan­taleão Vaz, ain­da moço, pos­to que já bom con­tramestre, tam­bém não cria em con­tos de bruxas, e achegan­do-​se dos tim­oratos com uma boa ro­ta, às chi­batadas lh­es acabou de sacud­ir o me­do, que as palavras do pi­lo­to tin­ham começa­do a dis­si­par.

  Havelius no­tou neste cometa, e de­pois no de 1661, fortes on­du­lações na cau­da, co­mo antes e de­pois out­ros as­trónomos afir­maram ter ob­ser­va­do em difer­entes cometas. 

  A noite pas­sou sem novi­dade, e ao primeiro alvor da man­hã uma tar­ja ne­gra que se enx­er­gou no hor­izonte, pela proa, veio ale­grar os nau­tas, paten­te­an­do-​lh­es a ter­ra da pá­tria. 

  Co­mo é doce, ao cabo de trin­ta e dois meses de ausên­cia, ten­do ar­rosta­do com to­da a sorte de peri­gos e tra­bal­hos, avis­tar o país na­tal! 

  E que dor, quan­do um con­tratem­po pro­trai ou aniquila a suave es­per­ança de pis­ar esse so­lo queri­do, e abraçar os par­entes e os ami­gos! 

  Que ale­gria reina­va nesse mo­men­to a bor­do do galeão! Quem diria que em pou­cas ho­ras se iam trans­for­mar em pro­fun­da tris­teza! 

  Uma vela, duas, qua­tro, cin­co, doze, vinte apare­ce­ram su­ces­si­va­mente pela proa do galeão, sain­do de­trás do Cabo da Ro­ca! E o Enxo­bre­gas es­ta­va tão per­to desse Cabo que, a serem in­imi­gos, não era pos­sív­el fu­gir-​lh­es. 

  E er­am in­imi­gos e cruéis! As meias lu­as de pra­ta desta­cavam no fun­do ver­mel­ho das ban­deiras que aque­les navios ar­vo­ravam. 

  Naus de tur­cos, in­imi­gos da cruz de Cristo que hastea­va o galeão por­tuguês, cer­cavam aque­la po­bre gente, mor­ta de cansaço, ex­ten­ua­da pelas pri­vações. 

  -Oh, o cometa! -ex­cla­ma­ram en­tão os su­per­sti­ciosos mar­in­heiros. -Ve­jam se ele não anun­ci­ava des­graça! 

  E o seu primeiro de­se­jo foi lançarem ao mar o pi­lo­to e o con­tramestre, que não cri­am em pressá­gios. 

  Porém, o in­imi­go aprox­ima­va-​se ao al­cance da ar­til­haria, mais em tom de fes­ta do que de guer­ra, ao que pare­cia, pois vin­ham em­ban­deiradas to­das as naus, e na capitâ­nia ou almi­ran­ta se tan­giam rui­dosa­mente vários in­stru­men­tos músi­cos. 

  A pele­ja era in­evitáv­el, e o seu re­sul­ta­do pouco du­vi­doso. 

  Vinte con­tra um e aque­les ro­bus­tos, e este en­fraque­ci­do, tais er­am as pro­porções da lu­ta que se ap­re­sen­ta­va. 

  Ali, tão per­to, a pá­tria, a sal­vação: aqui, quase cer­ta, a morte ou o cativeiro! 

  Bastião de Morais, o dos ócu­los, o de forte coração, di­rigiu-​se à sua gente nes­tas con­cisas palavras:

  -Quem pref­ere a des­on­ra a uma morte glo­riosa, ar­rie o ba­tel e vá en­tre­gar-​se àque­les per­ros de­scri­dos. O resto pon­ha lestes a ar­til­haria, as lanças ao al­cance do braço e fo­go so­bre os in­fiéis. 

  -Vi­va o nos­so capitão-​mor! -bradou unís­sona to­da a trip­ulação. 

  -Vi­va Por­tu­gal, e mor­ramos to­dos com hon­ra pe­lo serviço de Deus e de el-​rei! 

  -Eis aqui quem há-​de aju­dar-​nos -acres­cen­tou o capelão alçan­do no ar um cru­ci­fixo. 

  -Ele mor­re