u por nós; de­mos pois a vi­da pela sua san­ta re­ligião! 

  -A eles, que a capitâ­nia in­imi­ga já es­tá pe­lo nos­so través! 

  -Fo­go! 

  E o galeão Enxo­bre­gas, alque­bra­do, fazen­do água, com uma guarnição dimin­uta, foi o primeiro a travar tão de­sigual batal­ha! 

  É que os seus trip­ulantes e pas­sageiros sacud­iram de si nesse mo­men­to so­lene e de­ci­si­vo a doença, a de­bil­idade, o temor da morte, e tornaram-​se gi­gantes. As próprias mul­heres, es­que­cen­do a fraque­za do seu sexo, ar­maram-​se para o com­bate. Em poucos mo­men­tos tu­do es­ta­va a pos­tos, e um bem sus­ten­ta­do fo­go vom­ita­va so­bre o in­imi­go uma chu­va de pelouros.

  Gil Cor­reia, o de­spen­seiro im­prev­idente, que vin­ha em fer­ros no porão para ser sen­ten­ci­ado em Lis­boa, que­brou as al­ge­mas e apare­cen­do na tol­da, de es­pa­da em pun­ho, pediu ao capitão-​mor, pelas cha­gas de Cristo e por sua Mãe Maria San­tís­si­ma, que o deix­as­se mor­rer pele­jan­do con­tra os in­imi­gos da fé, ao la­do dos seus ca­ma­radas, To­dos lou­varam o no­bre pro­ced­er do de­spen­seiro, e a li­cença foi con­ce­di­da sem de­lon­ga. 

  Dona Cata­ri­na, em­pun­han­do tam­bém um mon­tante, e chis­pan­do fo­go dos ne­gros e bril­hantes ol­hos, pare­cia o an­jo do ex­ter­mínio alça­do so­bre o chapitéu do galeão, Al­guns pas­sos dis­tante dela, o príncipe Dom Mar­tin­ho, di­ri­gia o fo­go das es­peras da tol­da e mostra­va am­plo praz­er, con­tem­plan­do o quadro de de­stru­ição que se de­sen­rola­va ante seus ol­hos, Rui da Cun­ha es­ta­va à ban­deira, e Dona Leonor acom­pan­ha­va-​o, não com lá­gri­mas que en­fraque­cessem o ân­imo do es­força­do cav­aleiro, mas com palavras de con­so­lação e es­per­ança, e brandin­do igual­mente uma es­pa­da, 

  O capitão cor­ria o navio de popa a proa, de um bor­do a out­ro, vis­itan­do ora o con­vés, ora a cober­ta e de­ter­mi­nan­do fo­go con­tín­uo em am­bas as ba­te­rias, a bom­bor­do e a es­ti­bor­do ao mes­mo tem­po, porque as galés e as naus dos tur­cos es­tre­itavam o galeão em um cír­cu­lo in­fer­nal.

  To­dos fazi­am o seu de­ver; mais do que o seu de­ver, prodí­gios de hero­ici­dade! Vel­hos, moços, livres, es­cravos, cri­anças, mul­heres ri­val­izavam em cor­agem! Porém o com­bate não po­dia ser de lon­ga du­ra, pela difer­ença numéri­ca dos con­tendores e das bo­cas de fo­go. 

  Umas das maiores naus lançou os arpéus da abor­dagem ao galeão, e a gente do Enxo­bre­gas deixan­do de re­spon­der ao fo­go dos out­ros va­sos con­trários, cor­reu to­da à bor­da a que se en­costara o tur­co; e en­quan­to os maometanos, de al­fange na mão, saltavam às enxár­cias e ao con­vés da nau por­tugue­sa, os nos­sos abri­am com a es­pa­da e com a lança, cam­in­ho para a em­bar­cação in­imi­ga, pelas port­in­ho­las da sua ar­til­haria; e davam um com­bate na cober­ta in­fe­ri­or daque­le al­teroso navio, ao mes­mo tem­po que não menos cru­en­ta batal­ha se pele­ja­va na tol­da do Enxo­bre­gas. 

  -Rende-​te! 

  Era o gri­to fu­rioso que se es­cu­ta­va naque­les recin­tos, ora pro­feri­dos em árabe, ora em por­tuguês. 

  Aque­les en­car­niça­dos in­imi­gos não poupavam mu­tu­amente nen­hum meio de se hos­tilizarem, por mais hor­rív­el que fos­se. Os tur­cos bus­cav­am in­cen­di­ar o galeão, que não supun­ham fá­cil de apre­sar, em vista da tenaz re­sistên­cia que lhe op­un­ham os nos­sos; e os por­tugue­ses, con­tan­do com a morte cer­ta, fazi­am iguais diligên­cias com re­lação à nau dos in­fiéis, pois que­ri­am, à semel­hança de San­são, en­volver na própria ruí­na a de­stru­ição dos con­trários. 

  Mouros e cristãos re­alizaram os seus de­se­jos. O fo­go a