pare­ceu si­mul­tane­amente nas duas naus, rompen­do pelas es­cotil­has em es­padanas de fo­go, lam­ben­do os mas­tros e enredan­do-​se nos ovéns da enxár­cia. 

  Nem a pre­sença de tão hor­rív­el quadro fez abran­dar o com­bate. En­quan­to al­guns tur­cos acu­di­am a apa­gar o in­cên­dio da sua em­bar­cação, dili­gen­cian­do sep­arar-​se da nos­sa, os por­tugue­ses, sem lhe im­por­tar com a própria ruí­na, perseguiam os in­imi­gos em re­ti­ra­da, e ob­stavam à desunião dos dois va­sos. En­tre­tan­to a capitâ­nia, atrav­es­sa­da a pou­ca dis­tân­cia da popa do Enxo­bre­gas, começa­va a me­ter-​lhe balas de cox­ia, que var­ri­am o con­vés e a cober­ta. 

  Um pelouro de tra­bu­co varou o peito de Rui da Cun­ha, que vi­bra­va a es­pa­da com a mão di­re­ita e se­gu­ra­va com a es­quer­da a driça da ban­deira na­cional. Baque­an­do so­bre a varan­da, e sentin­do-​se mor­rer, abraçou a queri­da es­posa, e só teve força para lhe diz­er es­tas palavras: 

  -Não te deix­es apri­sion­ar pe­los in­fiéis. 

  E acabou!

  Dona Leonor, ven­do o navio em chamas, abraçou-​se com o cadáver do mari­do, e lançan­do-​se com ele ao mar, foi acom­pan­har no fun­do das águas e por to­da a eternidade aque­le de quem nun­ca se sep­arara em vi­da.

  Já não resta­va a menor es­per­ança de sal­vação, nem para os nos­sos, nem para aque­les que tiver­am a im­prudên­cia de se aprox­imar tan­to de home­ns de­ses­per­ados. Ban­hado em sangue, no seu pos­to, jazia o vel­ho pi­lo­to; e o padre Jerón­imo de­pois de o ou­vir de con­fis­são, ab­solveu-​o em nome de Deus, cor­ren­do em segui­da a prestar as úl­ti­mas con­so­lações a mestre Fer­nan­des, que acaba­va de cair tam­bém mor­tal­mente feri­do. 

  Daí ven­do abaterem-​se os mas­tros de que o fo­go se apos­sara e con­hecen­do bem que era chega­da a úl­ti­ma ho­ra para to­dos aque­les pecadores, o padre subiu à bor­da, lançou a ab­solvição so­bre to­dos os seus com­pan­heiros de um már­tir do cris­tian­is­mo, pas­sou à nau con­trária a me­ter-​se no meio da re­fre­ga, com a cabeça in­cli­na­da so­bre o peito, e abraça­do à cruz do Re­den­tor, achan­do ali poucos in­stantes de­pois a morte que bus­ca­va da mão dos in­fiéis. 

  O capelão não chegou a ver o úl­ti­mo ac­to deste san­guino­len­to dra­ma. Sem es­per­anças de parte a parte, os con­tendores pele­javam não já co­mo home­ns, nem co­mo leões, mas co­mo demónios! 

  Bastião de Morais, mal feri­do, en­sanguen­ta­do, de­fendia-​se só, e com a es­pa­da que­bra­da, con­tra vinte al­fanges que lhe vi­bravam não in­ter­rompi­dos golpes. Dom Mar­tin­ho co­bria com o seu cor­po o de Cata­ri­na, dis­putan­do aos sabres mau­ri­tanos o resto de vi­da que ain­da an­ima­va aque­la heroí­na, hor­riv­el­mente mu­ti­la­da no com­bate. Era um quadro medonho! 

  As naus tur­cas não vin­ham em auxílio daque­la que afer­rara o galeão, porque temi­am o con­tac­to do in­cên­dio que lavra­va a ol­hos vis­tos, e re­ceavam mais ain­da al­gu­ma ex­plosão dos paióis da pólvo­ra. 

  Tin­ham-​se ama­ra­do al­gum tan­to, porque o ven­to e a cor­rente ar­ras­tavam para a en­sea­da de Cas­cais os dois va­sos in­cen­di­ados. O po­vo acu­dia à pra­ia ar­ma­do de chuços vel­hos, mos­quetes e es­padas, para so­cor­rer, sendo pos­sív­el, os seus com­pa­tri­otas do galeão, que lu­tavam com cor­agem herói­ca nos úl­ti­mos trans­es de vi­da; porém, nen­hum auxílio lh­es pud­er­am prestar, porque, antes de chegarem à ter­ra as duas naus, que su­ces­si­va­mente se iam afun­dan­do, mer­gul­haram de to­do, e foram a pique. 

  Ain­da en­tre as va­gas, nadan­do com o braço es­quer­do, e es­gri­min­do a es­pa­da com a mão di­re­ita, al­g