 jovem e for­mosa fil­ha d'estes côn­juges, a en­can­ta­do­ra Madale­na, em vão ten­tou com lá­gri­mas en­ternecer os sub­le­va­dos; e bal­dadas foram tam­bém as diligên­cias dos padres, que in­vo­cavam o nome do Re­den­tor. O capitão e os bons home­ns do mar seguiram out­ro cam­in­ho. 

  Bastião de Morais lançou mão da sua boa es­pa­da de Tole­do e atirou-​se aos re­voltosos co­mo San­ti­ago a mouros; de ca­da cu­ti­la­da fazia um pro­fun­do gilvaz e, quan­do Deus que­ria, uma am­putação. Mestre Fer­nan­des, com um vel­ho chan­fal­ho, fazia o que po­dia. O Cheira-​Din­heiro ar­mou-​se com um pé-​de-​cabra. Pêro Doura­do servia-​se do as­trolábio co­mo de um aríete. O so­ta-​pi­lo­to ar­remes­sa­va con­tra os in­sur­gentes as balas que acha­va pelas chaleiras. Um es­trin­queiro ati­ra­va ao monte com o poleame que en­con­tra­va à mão, tor­nan­do em pro­jécteis de guer­ra moitões, cader­nais, polés, sap­atas e caçoi­los. O con­destáv­el dis­tribuiu à pres­sa al­gu­mas es­padas e chuços de mar­in­hagem, e a re­vol­ta foi su­fo­ca­da em sangue.

  Imag­inem os leitores que hor­rív­el não se­ria es­ta lu­ta no acan­hado âm­bito de um navio, no iso­la­men­to do mar e em vista dos es­tra­gos pro­duzi­dos pela tor­men­ta! Em vez de lou­varem a Deus pela bo­nança que lh­es man­da­va, estes pecadores en­dure­ci­dos con­fun­di­am o sangue de seus ir­mãos com as águas do oceano, e es­capa­dos mi­la­grosa­mente de um grande peri­go, bus­cav­am por suas mãos out­ro maior!

  A go­lil­ha e as al­ge­mas adornaram os pescoços, mãos e pés dos delin­quentes que o fer­ro poupou na re­fre­ga; os mor­tos foram lança­dos ao mar com os com­pe­tentes pelouros amar­ra­dos às per­nas; e os feri­dos pas­saram a habitar nos catres da en­fer­maria, en­tregues ao cuida­do de uma es­pé­cie de li­cen­ci­ado que vin­ha a bor­do. 

  Livre d'este ob­stácu­lo, o capitão-​mor, que já havia en­con­tra­do out­ros ócu­los, chamou o carpin­teiro e o calafate para lh­es en­car­regar a faina de ata­man­car­em o mel­hor pos­sív­el o navio, a ver se es­tanca­va a água; ao mestre re­comen­dou O con­ser­to do ve­lame e sub­sti­tu­ição do mas­same ar­reben­ta­do e do poleame ren­di­do; e en­comen­dan­do-​se mui de­vota­mente a nos­sa Sen­ho­ra da Nazaré, or­de­nou ao pi­lo­to que soltasse o ru­mo para a il­ha de Moçam­bique.

  II. No­vas Per­son­agens

  Ven­cen­do com grande cus­to as in­dómi­tas cor­rentes do canal de Moçam­bique e bor­de­jan­do a to­do o pano en­tre a ter­ra firme e il­ha de S. Lourenço, foi o galeão Enxo­bre­gas aprox­iman­do-​se a pouco e pouco do lu­gar que de­man­da­va, não sem grande má­goa dos seus trip­ulantes, que não tin­ham já negó­cio que faz­er na il­ha, vis­to que as mer­cado­rias havi­am to­das ido ao mar e não pode­ri­am pas­sar esse ano à Ín­dia por ir adi­anta­da a monção; fi­can­do as­sim ex­pos­tos ao malé­fi­co cli­ma de Moçam­bique, sem es­pé­cie al­gu­ma de com­pen­sação.

  En­tre­tan­to o calafate tin­ha con­segui­do vedar a água dos al­tos e calafe­tar o ar­ru­ina­do trin­can­iz da nau, bem co­mo des­ob­stru­ir a ca­da das bom­bas para se to­car re­don­do e es­go­tar con­tin­ua­mente a água que lhe en­tra­va pelas obras vi­vas. O carpin­teiro con­ser­tou co­mo pôde a abi­ta que sofr­era com o tem­po­ral. ar­ran­jou novos pés-​de-​carneiro para sub­sti­tuir os que ren­der­am, fez no­vas bonecas para o lu­gar das que se par­ti­ram e cuidou em tu­do o mais da sua obri­gação com ver­dadeiro ze­lo. Tam­bém o mestre Fer­nan­des se não de­scuidou da sua parte, e aju­da­do pe­lo la­bo­rioso Cheira-​Din­heiro (que ape­sar de to­da a sua ac­tivi­dade nun­ca chegou a tomar-​lhe o gos­to) ar­ro