­tou o gu­rupés e pas­sou-​lhe uma con­tra-​trin­ca; sub­sti­tu­iu a ce­vadeira que­bra­da por uma ver­ga de gávea grande, que era pouco menor; botou a ri­ba os mas­taréus, en­ver­gou no­vas gáveas e com as be­tas pas­sadas de lon­go lev­ou as ver­gas ao seu lu­gar. De­pois amurou-​lhe os pa­pa-​fi­gos, caçou-​lhe as gáveas e a mezena, largou-​lhe a ce­vadeira e deixou ir o bar­co na água. 

  O pi­lo­to e o so­ta-​pi­lo­to con­sul­tavam os as­tros e as car­tas, a cor da água e os hor­izontes, e não pare­ci­am de­san­ima­dos. 

  O con­destáv­el tra­tou de pôr em boa or­dem as ar­mas de mão e sa­far a ar­til­haria para com­bate ou para sal­va, co­mo necessário fos­se; e o guardião en­car­regou-​se de pin­tar as al­caixas da nau com a aju­da de três moços que tin­ham man­ha de bor­radores. 

  Os gajeiros an­davam sem­pre lá por cima a ver se enx­er­gavam ter­ra: os padres pas­savam a vi­da em de­votas ocu­pações; e o capitão, cur­va­do ao pe­so da re­spon­sabil­idade que pe­sa­va so­bre ele, da­va-​se a per­ros por ter em­preen­di­do es­ta vi­agem da Ín­dia, po­den­do es­tar na fron­teira por­tugue­sa a bater-​se com os castel­hanos. 

  Já to­ca­va quase o seu fim o mês de Setem­bro quan­do do galeão avis­taram a Mesa, al­ta mon­tan­ha das prox­im­idades de Moçam­bique; porém co­mo era noite re­solver­am deixar para a seguinte man­hã o in­ves­ti­men­to no por­to. 

  Apare­ceu-​lh­es en­tão uma vela...Se se­ria de holan­deses que viessem vin­gar nestes por­tugue­ses a per­da de Lu­an­da, que Sal­vador Cor­reia lh­es ar­rebatara das mãos havia um ano! 

  En­quan­to a gente de guer­ra se apar­el­ha­va para com­bate, os padres tiravam es­mo­las para con­frarias e aceitavam os vo­tos dos tim­oratos a to­dos os san­tos da corte do céu, para que não hou­vesse peri­go. 

  A em­bar­cação aprox­imou-​se; era in­gle­sa. Já en­tão trem­ula­va o pavil­hão de San­to An­dré por estes mares! 

  Pas­sou por gilaven­to do Enxo­bre­gas e saudou os nos­sos com suas trom­be­tas; mas não obteve re­spos­ta, porque estes não es­tavam ago­ra para cumpri­men­tos, e en­tão a in­gle­ses! 

  A nau lá se foi a ru­mo do Cabo, e a nos­sa pairou no canal à es­pera da man­hã e en­fada­da de repeti­dos agua­ceiros.

  Ao alvore­cer do no­vo dia en­testou com a cos­ta, cer­ran­do à boli­na a rastear com a il­ha de Goa; e per­pas­san­do rente da ma­jestosa for­taleza de S. Se­bastião, foi lançar ân­co­ra em seis braças de fun­do ao nor-​noroeste da mes­ma for­taleza.

  No por­to não es­ta­va uma só em­bar­cação de al­to bor­do; ape­nas al­guns pan­gaios cosi­dos com a ter­ra, e as ligeiras al­ma­dias que sul­cavam as águas di­rigin­do-​se al­gu­mas de­las para o galeão. 

  O Enxo­bre­gas tin­ha má sina: não se sal­va­va de um peri­go senão para se es­petar em out­ro! As­sim bra­mavam os mat­alotes que o guarne­ci­am. A amar­ra que ar­ri­aram para o fun­do es­ta­va da­da ao cabrestante da xare­ta, e com a força do es­ticão no fun­dear lev­ou con­si­go o cabrestante! Não es­ta­va out­ra amar­ra telin­ga­da, e en­quan­to a alavam aci­ma tin­ha tem­po a nau de se faz­er em pedaços na cabe­ceira para onde as águas a em­purravam. Valeu o ba­tel e o es­quife que aju­da­dos das al­ma­dias tomaram vi­radores e os­ta­gas de bor­do com que re­bo­caram o galeão para fo­ra da cos­ta. Afi­nal largou out­ra ân­co­ra com mais cuida­do, e o navio se­gurou de vez.

  Co­mo dis­se­mos, não es­ta­va nen­hu­ma nau no an­co­radouro, mas apare­ceu, com ger­al es­pan­to, a bor­do do Enxo­bre­gas, o capitão-​mor do galeão S. Lourenço, saí­do de Lis­boa um mês antes daque­le, e que, co­mo dis­se­mos, se perdera nos baixos de Mox­in­cale, com grande ex