travio de pes­soas e cabe­dal. Este cabo, por nome Dio­go Leite Pereira, comen­dador de Ale­grete na Or­dem de Cristo, vin­ha acom­pan­hado pe­lo in­quisidor apos­tóli­co Paulo Castelino de Fre­itas e out­ras pes­soas de dis­tinção, das que es­caparam ao naufrá­gio. Não sabi­am porém no­vas do que de­vera ser seu com­pan­heiro to­da a vi­agem, e que se apartou de­les na al­tura da Guiné, o galeão no­vo Nos­sa Sen­ho­ra do Bom Suces­so, de que era almi­rante Vas­co de Azeve­do. Es­ta dúvi­da poucos dias durou; porque a 14 de Out­ubro seguinte chegaram a Moçam­bique dois home­ns daque­le galeão que se perdera, co­mo tam­bém já dis­se­mos, abaixo das il­has de An­goxa, mor­ren­do trezen­tas pes­soas que iam a seu bor­do, es­capan­do só com vi­da cen­to e dez; du­rante a vi­agem já havi­am fale­ci­do de molés­tia ou aci­dente cen­to e cin­co home­ns, in­cluin­do neste número o almi­rante. 

  As­sim, pois, en­quan­to se cor­ri­giam as avarias do galeão Enxo­bre­gas, in­vernara a gente das três naus nes­ta doen­tia il­ha de Moçam­bique, su­cumbindo mui­ta dela às febres da carneira­da, e out­ra mes­mo à fal­ta de al­imen­tos sa­dios. Os mar­in­heiros ain­da lá re­si­sti­ram, mas os sol­da­dos reinões caíam co­mo tor­dos.

  O fi­dal­go, que servia de gov­er­nador na ausên­cia de Ál­varo de Sousa de Távo­ra, que es­ta­va na ter­ra firme, hospe­dou em sua casa o capitão do Enxo­bre­gas e al­guns pas­sageiros de prol, co­mo Rui da Cun­ha e sua família, do mes­mo mo­do que o fiz­era já a Dio­go Leite, ao in­quisidor e a out­ros. Este hós­pede era mance­bo ain­da, de grandes brios, de gen­til pre­sença e bem-​falante. Chama­va-​se Luís de Brito.

  Com a vista quo­tid­iana do for­moso ros­to e gra­cioso ade­mane de Dona Madale­na da Cun­ha, acen­deu-​se no coração do no­vo gov­er­nador in­teri­no uma in­vencív­el paixão pela donzela; e re­sol­ven­do-​se a pe­di-​la ao pai em casa­men­to, obteve a sua mão, pois lhe não era in­fe­ri­or em fi­dal­guia. 

  Foi um dia de fes­ta para Moçam­bique o desse con­sór­cio, que se cele­brou a 10 de Março de 1650; e lo­go pas­sa­dos cin­co dias se par­tiu a nau Enxo­bre­gas para Goa, aprovei­tan­do a monção pe­que­na e deixan­do em Moçam­bique a fil­ha de Rui da Cun­ha que com mui grandes pran­tos se de­spediu de seus pais. 

  Não pense porém o leitor que perde de vista para sem­pre a for­mosís­si­ma Madale­na. Ape­sar de es­tar­mos es­creven­do uma verídi­ca história e não fab­ulosa nov­ela, não po­den­do as­sim preparar sur­preen­dentes peripé­cias, sucede que a re­al­idade teve neste ca­so seus vi­sos de ro­mance, e que as prin­ci­pais per­son­agens que men­cionamos voltam to­dos a en­con­trar-​se, de­pois de sep­ara­dos em difer­entes pon­tos. 

  Largou pois a nau do por­to de Moçam­bique a 15 de Março, pela man­hã, com o ter­ren­ho; e dei­tan­do de bar­ra fo­ra gov­ernou ao nordeste-​meio-​leste em gáveas e pa­pa-​fi­gos, en­con­tran­do o mar de leite, al­gu­mas cor­rentes a leste, ven­to do quad­rante sueste e céu quase sem­pre nubla­do.

  Lev­ava a seu bor­do al­guns dos náufra­gos dos galeões S. Lourenço e Bom Suces­so; out­ros destes in­fe­lizes seguiram lo­go a 10 de Abril para Goa no pat­acho do capitão de Diu; e o resto só deixou Moçam­bique na monção de Setem­bro. De mil e trezen­tos home­ns que nestes dois navios saíram de Lis­boa, só chegaram duzen­tos à Ín­dia! 

  Ten­do avis­ta­do a il­ha do Co­moro, con­tin­uaram sua der­ro­ta com cautela os do galeão Enxo­bre­gas, para se desviarem dos baixos de S. Lázaro e do Pa­trão; mon­tan­do este, me­ter­am à orça para leste quan­to pud­er­am para afas­tar da cos­ta da De­ser­ta, onde as águas en­costam com forte cor­renteza; e sem­pre com bom tem