po foram nave­gan­do até avis­tar os Il­héus Queima­dos, a mel­hor con­hecença da prox­im­idade de Goa. 

  Já antes havi­am en­con­tra­do no mar as co­bras co­mo en­guias, de que falam os roteiros, e que se afas­tam até cem léguas da cos­ta, às vezes; os ban­dos de cor­vas pre­tas e né­dias, cas­cas de si­ba al­vas e aque­las es­cumas re­dondas, des­ova­men­to de peixe, a que chamam tostões e vin­téns, e que, se­gun­do o nos­so Pi­mentel, são sinais cer­tos da prox­im­idade da cos­ta. 

  A 13 de Abril avis­taram com efeito o farol da, a for­taleza da mes­ma de­nom­inação, a igre­ja de S. Lourenço, ed­ifi­ca­da poucos anos antes pe­lo vice-​rei, conde de Lin­hares, o con­ven­to de Ca­pu­chos de Nos­sa Sen­ho­ra do Cabo, e en­fim o rio Man­dovi que con­duz à cidade. O galeão surgiu próx­imo do mor­ro de Bardez, a um tiro de mos­quete da ter­ra. 

  Chega­dos fe­liz­mente à de­se­ja­da Ín­dia, os reinões em­bar­caram-​se em tonas para a cidade, já com a mi­ra nas bailadeiras, de que lh­es falavam amiúde os vel­hos nave­gadores do Mal­abar; en­quan­to estes ob­ser­vavam com tris­teza o aba­ti­men­to daque­le es­ta­do que defin­ha­va a ol­hos vis­tos de ano, de dia para dia! 

  O vice-​rei Dom Fil­ipe Mas­caren­has acol­heu bem a to­dos; e Dona Leonor da Cun­ha, à parte a saudade da fil­ha, pôde en­fim des­cansar em mel­hor cli­ma, e com re­ga­los que há muito lhe fal­tavam. 

  O galeão foi para a Ribeira das Naus a for­rar de no­vo, de­pois de pron­to de to­da a obra de carpin­te­ria e calafe­to. Pas­sou-​se-​lhe uma rig­orosa vis­to­ria, e ape­sar de muito alque­bra­do e de se lhe en­con­trarem par­tidos muitos vaus, cur­vas de con­vés e revés, dor­mentes, en­trem­ixas, braços e hás­tias, não o con­denaram; e a ver­dade é que fi­cou co­mo no­vo, e que fazia uma lin­da vista quan­do apare­ceu de ver­ga de al­to. 

  Não muito dis­tante, porém, do lu­gar em que jazia a nau, se deu um lamen­táv­el es­pec­tácu­lo por esse tem­po. Com baraço e pregão foi con­duzi­do à margem do Man­dovi o mestre Domin­gos Hen­riques, do galeão S. Lourenço, e en­for­ca­do aí co­mo cul­pa­do da per­da daque­le navio, por não ter as amar­ras telin­gadas quan­do foi o naufrá­gio, o que con­tribuiu para se não poder sal­var a em­bar­cação, e out­ras cul­pas que lhe car­regaram. 

  O pi­lo­to do mes­mo galeão, de nome Dio­go Tavares, foi con­de­na­do em dez anos de galés; e out­ros ofi­ci­ais sofr­eram prisões e in­có­mo­dos. Des­graças so­bre des­graças! 

  Em con­se­quên­cia do grande naufrá­gio que sofr­eram no por­to de Goa, em 1647, os navios que se des­ti­navam para a Chi­na, e que to­dos se afun­daram sem remé­dio, de­ter­mi­nou ago­ra o vice-​rei de en­viar' o galeão Enxo­bre­gas àque­las partes com o resto da pre­ciosa car­ga que ain­da para ali não havia si­do pos­sív­el trans­portar. Achan­do-​se les­ta a nau e trip­ula­da com os mes­mos ofi­ci­ais, e quase to­da a mes­ma mar­in­hagem que troux­era de Lis­boa, abalou de Goa aos nove dias do mês de Setem­bro daque­le ano de 1650, abar­ro­ta­da de mui im­por­tante car­rega­men­to para Macau. 

  Lá fi­ca­va na Ín­dia Rui da Cun­ha e sua es­posa, que ain­da tornare­mos a en­con­trar no de­cur­so des­ta história; e bem as­sim os fi­dal­gos, ofi­ci­ais e sol­da­dos que iam servir na Ín­dia, bem co­mo os je­suí­tas e fran­cis­canos que iam para os seus con­ven­tos daque­la cidade e es­ta­do. Seguiu, porém, na nau o seu capelão frei Jerón­imo e o mis­sionário que se des­ti­na­va ao martírio do Japão.

  Em­bar­caram mais, de pas­sagem para a Chi­na no galeão, duas pes­soas que têm ain­da de fig­urar nes­ta nar­ra­ti­va: er­am elas Dom Mar­tin­ho, príncipe de Ar­ra­cam, que fo­ra cri­ado e bap­t