i­za­do na Ín­dia, servin­do por al­guns anos nas ar­madas daque­le es­ta­do, e ul­ti­ma­mente co­mo capitão de Goa; e sua es­posa, uma gen­til chi­ne­sa, con­ver­ti­da ao cris­tian­is­mo, que fo­ra rouba­da em pe­quen­ina a seus pais pe­los nos­sos católi­cos nave­gadores e trazi­da a Cochim, onde foi acol­hi­da e muito bem ed­uca­da por um fi­dal­go por­tuguês. Es­ta for­mosa meni­na ia ver se de­sco­bria vestí­gios dos seus par­entes, e seu mari­do acom­pan­ha­va-​a nes­ta di­gressão, para voltarem jun­tos na mes­ma nau e se trans­portarem a Lis­boa, onde Dom Mar­tin­ho vin­ha re­quer­er por seus serviços. 

  Deix­emos, pois, a nau amu­rar-​se da cos­ta do Mal­abar en­quan­to tomamos fôlego para seguir na ro­ta da Chi­na.

  III. Fome e Sede! 

  Ho­je é quase um praz­er nave­gar. Praz­er in­teiro nun­ca di­rei que se­ja, porque sem­pre se sofrem al­gu­mas pri­vações a bor­do. Mas ago­ra en­con­tra-​se o con­for­to, a ve­loci­dade, e até cer­to pon­to a se­gu­rança que não havia no sécu­lo XVII, e que ain­da muito tem­po de­pois não hou­ve. A re­lação das per­das de naus por­tugue­sas nas car­reiras da Ín­dia, da Chi­na e do Japão, da Arábia e Sino Pér­si­co, do Brasil, Guiné e Con­go, é tão volu­mosa e tão hor­riv­el­mente trág­ica, que cus­ta a cr­er co­mo tan­tos de nos­sos avós, no­bres e ple­beus, ecle­siás­ti­cos e sec­ulares, vel­hos e moços e até mul­heres se ar­riscav­am aos peri­gos de temerosos mares nos mal con­struí­dos, ron­ceiros e in­có­mo­dos galeões, car­ave­las, za­vras, pat­achos e galés daque­les rudes tem­pos, em per­ma­nente risco du­ma morte do­lorosa.

  Des­de que começaram as de­scober­tas dos nos­sos con­ter­râ­neos por to­das as partes do mun­do, não se pas­sou talvez um ano, até à época a que se ref­ere es­ta história, sem que al­gum navio por­tuguês se perdesse e com ele a vi­da de muitos home­ns e pre­ciosos cabe­dais. A princí­pio, a cor­agem dos nos­sos em se ex­por às fúrias do oceano, poder-​se-​ia ex­plicar por um vee­mente de­se­jo de glória, de gan­har nome hon­roso devas­san­do novos mun­dos; porém, no sécu­lo XVII já não era mais do que am­bição que ar­ras­ta­va aos mares os fil­hos dos Gamas e dos Pachecos. Ao guer­reiro sub­sti­tuíra-​se o ne­go­ciante, ao de­sco­bri­dor o es­pec­ulador, e até ao mis­sionário já se ia sub­sti­tuin­do o ri­co preben­da­do. O nos­so im­pério marí­ti­mo tin­ha de cair fi­nal­mente; e já se des­man­tela­va por difer­entes partes em 1650, quan­do o galeão Enxo­bre­gas, alon­gan­do-​se do Mal­abar, per­dia o cheiro da pi­men­ta, que diziam os mar­in­heiros lison­jear o ol­fac­to por to­da aque­la cos­ta, e procu­ra­va ver out­ro­ra nos­sa il­ha, il­ha de Ceilão, onde mel­hor aro­ma, o da canela, em­bal­sama os ares até grande dis­tân­cia da ter­ra.

  A 20 de Setem­bro, de­pois de terem apan­hado bas­tantes tro­voadas mas pou­cas cal­marias por irem afas­ta­dos da cos­ta, enx­er­garam o Cabo Co­morim; e fug­in­do do gol­fo que sep­ara o di­to Cabo da il­ha de Ceilão, por causa da força das cor­rentes que ali se en­con­tram, guinaram para fo­ra de Pon­ta de Galé, des­vian­do-​se as­sim do cel­ebra­do Pi­co de Adão, tão re­speita­do dos in­di­anos.

  Com vi­agem reg­ular, sem água de mais na lom­ba nem de menos nos tonéis, foram nave­gan­do por aque­le ex­ten­so gol­fo de Ben­gala, gov­er­nan­do de mo­do a pas­sar pe­lo canal das il­has de Nico­bar, onde ten­cionavam tomar al­guns re­fres­cos. Daí sin­gran­do pe­lo canal de Som­breiro, já com ven­to mais fres­cal­hão e que prome­tia crescer, dili­gen­cia­ram abri­gar-​se no óp­ti­mo por­to de leste da il­ha da Pi­men­ta e faz­er aí mais agua­da, en­quan­to pas­sa­va a maior forç