a da bor­ras­ca. 

  An­da­dos já dias de Out­ubro, em­bo­caram pe­lo es­tre­ito de Mala­ca, deixan­do pela popa o en­tão in­signif­icante Pu­lo Pinão, ho­je im­por­tante Pinang ou il­ha do Príncipe de Gales dos bretões; e en­co­stan­do-​se mais à ter­ra de Achem do que à penín­su­la Mala­ia, para não avistarem aque­le sober­bo em­pório avas­sal­ado por Al­bu­querque e que há mais de dez anos jazia em poder dos holan­deses, sur­gi­ram ao cabo de al­guns dias em face da il­ha de Sin­ga­pu­ra, lu­gar quase de­ser­to en­tão, hu­milde val­ha­couto de mis­eráveis pescadores, e ho­je as­sen­to de uma das mais for­mosas e com­er­ci­ais cidades do mun­do. 

  As de­cantadas sama­tras destas par­agens não havi­am afronta­do muito os nos­sos nave­gantes no tra­jec­to en­tre as duas por­tas do es­tre­ito de Mala­ca, cu­jas chaves guardam cuida­dosa­mente ho­je os nos­sos anti­gos e mais fiéis ali­ados, mod­er­nos herdeiros deste vín­cu­lo por­tuguês, in­sti­tuí­do por Dio­go Lopes de Se­queira, Fer­não de Ma­ga­lhães e out­ros.

  Daqui para o mar da Chi­na sai-​se por um de três es­tre­itos, que se de­nom­inam: do Gov­er­nador, de Salete-​Baró ou Sin­ga­pu­ra-​a-​Vel­ha e de Sin­ga­pu­ra. Este úl­ti­mo preferiu o pi­lo­to da nau Enxo­bre­gas para pas­sar avante, e gov­er­nan­do a leste enx­er­gou o al­vo cume da Pe­dra Bran­ca, onde ho­je ex­iste um farol. Daí nave­gan­do ao norte-​quar­ta-​de-​nordeste, procurou re­con­hecer Pu­lo Laor. Com ven­to fa­voráv­el seguiu o galeão, pru­man­do de meia em meia ho­ra, à vista da en­sea­da de Siam.

  Quan­do porém se ac­er­ca­va de Pu­lo Con­dor, an­te­man­hã, e que o pru­mo mar­ca­va de­zoito braças de fun­do, área bran­ca com cara­mu­jos e conch­in­has, tra­tou o pi­lo­to de orçar, bus­can­do maior fun­do, para não ir por den­tro dos i1hotes en­costar-​se à ter­ra de Cam­bo­ja, onde, quase um sécu­lo antes, se perdera Camões; mas de re­pente caiu so­bre o navio tão ri­ja sama­tra, que pare­cia acabar-​se o mun­do. 

  O mestre, muito práti­co des­ta nave­gação, gri­tou lo­go da proa: 

  -Amaina tu­do! Amaina! E ligeiro, que não é para graças es­ta tro­voa­da! 

  -An­dar com a mão, ca­ma­radas! -bradou em segui­da o con­tramestre fazen­do tomar as ve­las, menos um bol­so do tra­que­te, e dis­tribuin­do al­guns pescoções aos moços para ac­ti­var a manobra.

  Quan­do o capitão apare­ceu no chapitéu da popa para dar força moral à trip­ulação, já o mar an­da­va re­volto, co­mo se a bor­ras­ca durasse há muitos dias; o céu ne­gro e pe­sa­do achata­va-​se so­bre os topes dos mas­taréus, a chu­va caía em grossas go­tas so­bre o con­vés da nau; e o ven­to, as­so­bian­do hor­riv­el­mente por en­tre os ca­bos e an­te­nas, pare­cia quer­er der­rib­ar to­dos os ob­stácu­los que en­con­tra­va. 

  Era um quadro medonho! E pos­to que repeti­do mais de uma vez nes­ta vi­agem e con­tem­pla­do mil vezes pela maru­ja e ofi­cial­idade do Enxo­bre­gas em out­ras ocasiões, nem por is­so deix­ava de ater­rar. 

  As ce­nas da tor­men­ta são sem­pre orig­inais! Os seus as­pec­tos, peripé­cias e re­sul­ta­dos vari­am dum para out­ro pon­to do globo, de uma para out­ra es­tação do ano, e es­tão em parte su­jeitos à qual­idade das em­bar­cações e à perí­cia dos seus mare­antes. 

  Não hou­ve remé­dio senão dar a popa ao ven­to, e cor­rer sem norte, talvez a cam­in­ho da perdição! 

  O leme da­va hor­ríveis pan­cadas, e nem pas­san­do-​lhe novos al­dropes er­am bas­tantes dez home­ns para o sub­ju­gar! Afi­nal, tão grande mar reben­tou na popa do galeão, que os ma­chos do leme par­ti­ram e fi­cou sem gov­er­no o bar­co! 

  Começa­va a alvo­ra­da. O con­tramestre com al­guns mar