­in­heiros mais ex­pe­ri­entes no seu ofí­cio im­pro­visa­va uma es­par­rela, com toros de amar­ra e uma an­te­na, a fim de sub­sti­tuir o per­di­do timão; e o mestre carpin­teiro, com aju­da de al­guns mance­bos, trata­va de con­ser­tar o coice da popa, e o cadaste, ar­ru­ina­dos pelas pan­cadas que lhe de­ra o leme, quan­do se de­spe­gou de­les. Mestre Duarte Fer­nan­des cor­ria a uma e a out­ra parte do navio, safan­do ras­ca­da e ex­am­inan­do se es­ta­va reben­ta­do al­gum ovém da enxár­cia, al­gum bran­dal ou es­tai, e se os ca­bos de lab­orar es­tavam claros para a manobra. O con­destáv­el e o calafate fechavam pre­gavam e calafe­tavam as port­in­ho­las das peças, en­quan­to os sol­da­dos de mar pas­savam con­traver­gueiros à ar­til­haria. 

  O Sol raiou bril­hante. A sama­tra havia fugi­do; mas, co­mo uma maldição de Deus, deixara sinais in­deléveis da sua pas­sagem! 

  A nau pôde largar as gáveas; a es­par­rela foi colo­ca­da na popa, e gov­er­na­va com tal­has do­bradas que pas­savam pelas port­in­ho­las dos guar­da-​lemes; porém Macau ain­da es­ta­va longe!... Ar­rib­ar, para onde? Seguir, e a tor­men­ta?... Se lhe cai um tem­po duro, sem leme!... O padre Jerón­imo re­solveu a questão, fazen­do vo­to, em nome de to­dos os mare­antes e pas­sageiros pre­sentes, de levarem a gávea do tra­que­te em de­vota pro­cis­são aos pés de Nos­sa Sen­ho­ra da Con­ceição, no seu al­tar de Macau, se Deus por in­ter­cepção da Virgem os con­duzisse a sal­va­men­to à Chi­na, e que con­tin­uassem a nave­gar ao seu des­ti­no. Aprova­da, por maio­ria, a moção, co­mo ho­je se diria, seguiu a nau a es­teira do Ori­ente.

  O tem­po foi abo­nançan­do de ho­ra para ho­ra porque o ven­to não era já de ar­ran­car pin­heiros, e só o balouçar das va­gas fazia en­joar a nau.

  Achan­do com a son­da fun­do de área pre­ta, en­ten­deu o so­ta-​pi­lo­to es­tar com a Iagem de Ma­teus de Brito, e pos­to que o pi­lo­to se fizesse já ao mar de Pu­lo Ce­cir, sem­pre foram dei­tan­do ao nordeste para se­gu­rar a manobra, e mes­mo para desviar da cos­ta de Cham­pá, que se dizia an­dar su­ja de corsários. Bom es­ta­va ago­ra o galeão para com­bat­es! 

  Pas­san­do a leste da coroa de San­to An­tónio, e in­do em de­man­da das primeiras il­has da Chi­na, começou o ven­to leste a fusti­gar a nau, de mo­do que tornou a abrir água. Ora num bor­do, ora no out­ro, en­fim, com as bom­bas na mão, lá iam barlaven­te­an­do para o seu cam­in­ho, en­quan­to ele durou; mas por de­zoito graus de lat­itude se­ten­tri­on­al en­traram umas im­per­ti­nentes cal­mas com a em­bar­cação, co­mo se es­tivesse na lin­ha. Toma­va-​se o Sol ao meio-​dia e acha­va-​se a mes­ma al­tura da véspera! A bar­quin­ha não tra­bal­ha­va, e o pano, para se não romper, es­ta­va de­baixo da gax­eta. Pairavam por força maior, não co­mo o holandês à es­pera de bom tem­po.

  Porém uma des­graça, maior do que to­das ocor­ri­das nes­ta mal­fada­da der­ro­ta, es­per­ava ain­da os mis­eráveis trip­ulantes da nau Enxo­bre­gas, e seus pas­sageiros!... Era a fome, com o de­do car­co­mi­do, apon­ta­do para as ag­onias du­ma morte lenta... Era a sede, mil vezes mais hor­rív­el do que a fome, ace­nan­do com os delírios da febre a es­ta tur­ba de­ses­per­ada!... 

  Des­de que havi­am fugi­do da bar­ra de Cham­pá, vin­ha a gente da nau a dois terços de ração e três quar­til­hos de água para be­ber, e meia cana­da para co­zin­har em ca­da dia; porém vier­am denún­cias ao capitão de que o de­spen­seiro, um tal Gil Cor­reia, lava­va a sua roupa em água doce, e ban­quetea­va os seus ami­gos to­dos os domin­gos e dias san­tos. Ven­do pois Bastião de Morais que con­tin­uavam as cal­mas, sem se poder adi­vin­har quan­do teri­a