Title: O Mar
Author: Ramalho Ortigão
CreationDate: Fri Jul 24 16:29:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Feb 18 15:40:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  O Mar

  Ra­mal­ho Or­tigão

  O Mar foi ex­traí­do do livro As Pra­ias de Por­tu­gal - Guia do Ban­hista e do Vi­ajante.

  © 1996, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-74

  Lis­boa, Fevereiro de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

  ***

  O MAR

  As­sim co­mo qua­tro quin­tas partes do cor­po hu­mano são água, as­sim qua­tro quin­tas partes da grande cor­pulên­cia do globo são mar. Pare­cen­do sep­arar os home­ns, o be­lo des­ti­no eter­no do mar é re­uni-​los. 

  A ba­cia do Mediter­râ­neo con­fi­na­va o mun­do anti­go habita­do pe­los Gre­gos, pe­los Fení­cios e pe­los Egíp­cios. Foi pe­lo Mediter­râ­neo que par­ti­ram as primeiras coló­nias que povoaram a África e a Ásia, es­ta­bele­cen­do o princí­pio das nos­sas re­lações com o mun­do no­vo. No Egip­to, na Pen­tapotâmia e na Chi­na as prim­iti­vas civ­iliza­ções seguiram, se­gun­do Hum­boldt, o cur­so dos rios e baixaram dos montes ao litoral. Na Fení­cia e na Gré­cia as primeiras ex­pe­dições marí­ti­mas ini­cia­ram os nos­sos domínios so­bre as forças da Na­tureza. 

  De tal mo­do, o mar foi o primeiro guia da hu­manidade.

  Amoráv­el e aus­tero, foi ele que primeiro em­balou o berço do homem e que em segui­da o acor­dou para os no­bres tra­bal­hos, sug­erindo-​lhe as primeiras noções do Uni­ver­so. 

  O de­sen­volvi­men­to dos es­tu­dos nat­urais tem pro­gres­si­va­mente mod­ifi­ca­do a opinião in­cul­ta, su­per­sti­ciosa e ater­ra­da de que o mar é o in­sondáv­el abis­mo tene­broso e de­ser­to. 

  Nat­ural­is­tas amer­icanos têm uni­ca­mente ex­plo­rado o mar a pro­fun­di­dades de dois mil e sete­cen­tos met­ros. Hux­ley, o sábio zo­ol­ogista in­glês, pen­etrou com a son­da e com a dra­gagem até qua­tro mil met­ros no fun­do do al­to mar. 

  As ex­plo­rações do leito do oceano, feitas por ocasião de ser colo­ca­do o cabo transatlân­ti­co e o cabo des­ti­na­do a lig­ar a cos­ta de Argel com a Itália pe­lo vale sub­mari­no situ­ado en­tre Cagliani e Bône, os tra­bal­hos enc­eta­dos com o mes­mo fim no mar das An­til­has, no oceano Pací­fi­co, no Gulf Stream, provam que o fun­do do mar é habita­do na sua maior pro­fun­deza, que o in­te­ri­or das águas mais afas­tadas das costas tem a sua fau­na. 

  A pressão dos mais ex­traordinários vol­umes de água e o su­ces­si­vo re­baix­am­en­to ter­mométri­co não es­magam a vi­da nos cor­pos que encer­ram líqui­dos em vez de ar. 

  Os an­imais ex­traí­dos dos mais fun­dos re­ces­sos aquáti­cos a que de­sceu a dra­ga os­ten­tam as cores mais vi­vas, em que pre­dom­inam o roxo, o amare­lo e o verde. Es­sas difer­entes es­pé­cies, anal­isadas e re­duzi­das, têm per­feita­mente con­for­ma­dos os órgãos da visão. 


  Co­mo os an­imais que vivem na ob­scuri­dade são de cor som­bria, com os ol­hos atrofi­ados, é claro que, em vez das trevas, uma es­tran­ha luz de­scon­heci­da pen­etra os vales, os de­spen­hos, as cav­er­nas mais ín­ti­mas do grande leito do mar e alu­mia a in­ten­sa vi­tal­idade de um no­vo mun­do an­imal, rev­ela­do ape­nas aos es­tu­diosos pe­los mais re­centes tra­bal­hos de zo­ol­ogis­tas co­mo os Srs. Agas­siz, Pour­talés, Wyvi­JIe, Thom­son e Jef­fryes. 

  Guia dos home­ns, pro­mo­tor das civ­iliza­ções, rev­elador do Uni­ver­so, pro­gen­itor das ideias que de­ter­mi­naram o abraço frater­no da hu­manidade em to­do o mun­do, o mar é ain­da o mais poderoso fo­co, o mais abun­dante man­an­cial da vi­da.

  É inu­meráv­el a quan­ti­dade de an­imál­cu­los mi­croscópi­cos 