pági­na pri­morosa e in­ex­cedív­el. Rouba­dos, in­sul­ta­dos, de­spi­dos pe­los cafres, Manuel de Sousa, com a sua família, de­spede-​se dos seus com­pan­heiros de in­fortúnio, dos náufra­gos do galeão grande, que Manuel de Sousa co­man­da­va. Os mar­in­heiros prosseguem, choran­do de saudade e de lás­ti­ma, a sua vi­agem do­lorosa no sertão. Manuel de Sousa fi­ca, aparente­mente in­difer­ente, nu, com uma com­pres­sa mol­ha­da na cabeça, a procu­rar .con­ter o juí­zo que lhe foge.

  «De­pois que An­dré Vaz se apartou de Manuel de Sousa e sua mul­her, fi­cou com ele Duarte Fer­nan­des, con­tramestre do galeão, e al­gu­mas es­cravas, das quais se sal­varam três que vier­am a Goa e con­taram co­mo vi­ram mor­rer D. Leonor. Manuel de Sousa, ain­da que es­ta­va mal­trata­do do mi­olo, não lhe es­que­cia a ne­ces­si­dade que sua mul­her e fil­hos pas­savam de com­er, e sendo ain­da man­co de uma feri­da que os cafres lhe de­ram em uma per­na, as­sim mal­trata­do, se foi ao ma­to bus­car fru­tas para lh­es dar de com­er. Quan­do tornou achou D. Leonor muito fra­ca, as­sim de fome co­mo de chorar, que de­pois que os cafres a de­spi­ram nun­ca mais dali se er­gueu nem deixou de chorar, e achou um dos meni­nos mor­to que por sua mão en­ter­rou na areia. Ao out­ro dia tornou Manuel de Sousa ao ma­to a bus­car al­gu­ma fru­ta, e quan­do voltou achou D. Leonor fale­ci­da e o out­ro meni­no. E so­bre ela es­tavam choran­do cin­co es­cravas com grandís­si­mos gri­tos. Dizem que ele não fez mais, quan­do a viu fale­ci­da, que apartar as es­cravas dali e as­sen­tar-​se per­to dela, com o ros­to pos­to so­bre uma mão, por es­paço de meia ho­ra, sem chorar nem diz­er coisa al­gu­ma, es­tando as­sim com os ol­hos pos­tos nela. E no meni­no fez pou­ca con­ta. E aca­ban­do este es­paço se er­gueu, e começou a faz­er uma co­va na areia com a aju­da das es­cravas, e sem­pre sem se falar palavra, a en­ter­rou, e o fil­ho com ela. E aca­ban­do is­to. tornou a tomar o cam­in­ho que fazia quan­do ia a bus­car as fru­tas, sem diz­er na­da às es­cravas, e se me­teu pe­lo ma­to, e nun­ca mais o vi­ram.» 

  Na­da mais sim­ples, mais sub­lime, mais pal­pi­tan­te­mente dramáti­co, mais fun­da­mente trági­co. Em to­das es­tas nar­ra­ti­vas, nem uma só ob­ser­vação psi­cológ­ica. Tu­do é ob­jec­ti­vo, ex­te­ri­or, co­mo nos mais mod­er­nos pro­ces­sos de es­ti­lo tão med­ita­dos, tão per­feitos, tão cien­tí­fi­cos da es­co­la de Flaubert. A im­pressão de quem lê é lanci­nante e pro­fun­da. Co­mo não temos de desviar-​nos com o au­tor pelas di­va­gações críti­cas da análise dos sen­ti­men­tos, o fac­to, em to­da a sua hu­mana in­teireza, apodera-​se de to­do o nos­so es­píri­to, e a co­moção pen­etra-​nos até à con­ster­nação ;e até às lá­gri­mas.

  Este ad­miráv­el livro, úni­co na lit­er­atu­ra por­tugue­sa, feito in­con­scien­te­mente por aque­les que o trasladaram da ver­são pop­ular, foi o mar, o grande mestre, que o in­spirou à poéti­ca al­ma aven­tur­osa dos nave­gadores por­tugue­ses.

  Camões, ten­do en­con­tra­do em Moçam­bique um dos mar­in­heiros so­bre­viventes ao naufrá­gio do galeão de Sepúlve­da e às aven­turas sub­se­quentes, ou­ve dele a história do de­sas­tre, e põe-​na na bo­ca do Adamas­tor, quan­do este pro­fere as del­icadas e saudosas es­tro­fes, que prin­cip­iam: 

  Out­ro tam­bém virá de hon­ra­da fama, 

  Lib­er­al. cav­aleiro e namora­do ... 

  Na famosa xá­cara da Nau Catrine­ta, queren­do o Demónio com­prar pela sal­vação da nau a al­ma do capitão, este ex­cla­ma: 

  Renego de ti, Demónio, 

  Que me es­tavas a aten­tar! 

  A min­ha al­ma é só de Deus, 

  E o meu cor­po é do mar! 

  Tal é o gri­to val­oro