hoso as­pec­to da pra­ia, na época das marés vi­vas, quan­do o Atlân­ti­co de­sco­bre uma parte do seu leito, é de­scrito nos seguintes ter­mos pe­lo nat­ural­ista Blan­chard: 

  «Nas primeiras rochas, to­cadas ape­nas pela va­ga du­rante uma parte do dia e da noite, vivem as es­pé­cies in­difer­entes à acção do ar e da chu­va; as glan­des mari­nas, com­ple­ta­mente fix­adas à pe­dra; as la­pas, cu­jas con­chas afec­tam a for­ma cóni­ca; os búzios on­da­dos; as ané­monas ver­mel­has. Mais longe, nas partes areen­tas, salti­tam os crustáceos do grupo dos ca­marões; a mora­da dos mo­lus­cos de con­cha bi­valve é in­di­ca­da por cer­tos bu­ra­cos na areia; cer­tos mon­tícu­los traem a pre­sença de várias es­pé­cies de anélides, os arení­co­las, de cor azeiton­ada e del­icadas guel­ras; os cir­ratúl­idas, cu­ja cabeça é provi­da de uma mul­ti­dão de fil­amen­tos, que se en­ov­el­am, con­tor­nam ou ar­ras­tam em to­das as di­recções; as sabelles, en­car­cer­adas nos seus tu­bos. Para além mostra-​se muitas vezes uma den­sa veg­etação: é a zona das plan­tas mari­nas, des­ig­nadas pe­lo nome de lam­inares. Aqui é mar­avil­hoso o cam­po das ex­plo­rações. A vi­da gol­fa por to­da a parte: os mo­lus­cos abun­dam, os zoó­fi­tos, os ver­mes de to­dos os géneros pu­lu­lam. So­bre as al­gas ar­ras­tam-​se lenta­mente mo­lus­cos sem con­cha, que po­dem ser con­ta­dos no número dos entes mais be­los, co­mo são os dóris e os eólides. Em cer­tos pon­tos des­per­ta a atenção uma veg­etação al­va­cen­ta. São os pra­dos de zooteras, em que se acham pro­fusa­mente dis­sem­ina­dos os an­imais. Mais longe de­sen­ha-​se uma no­va zona, car­ac­ter­iza­da pela pre­sença das al­gas crustáceas chamadas corali­nas. No meio destas plan­tas vivem os póli­pos e uma mul­ti­dão de an­imais que não apare­cem nun­ca mais per­to do litoral.»

  Nes­ta por­ten­tosa abundân­cia, quan­tas var­iedades de in­di­ví­du­os, quan­tas mar­avil­has na pro­cri­ação, no or­gan­is­mo e nos cos­tumes dos habi­tantes do mar! 

  Al­guns vi­ajam em balão, den­tro do seu el­emen­to. Dis­põem de uma bex­iga natatória, que enchem mais ou menos de ar, subindo ou baixan­do até à ca­ma­da de água em que de­se­jam ficar, e as­sim cam­in­ham sossega­dos, adorme­ci­dos. 

  Os mais vo­razes têm dentes ad­miráveis, ac­er­ados, finís­si­mos. Co­mo os po­dem que­brar facil­mente, há uma se­gun­da or­dem de dentes para sub­sti­tuir a primeira, uma ter­ceira para sub­sti­tuir a se­gun­da. Em al­guns os dentes enchem-​lh­es a bo­ca, co­brem-​lh­es a lín­gua, o pal­adar, a goela: ver­dadeiro ar­se­nal da vo­raci­dade.

  Têm as for­mas mais di­ver­sas, se­gun­do as ne­ces­si­dades do seu or­gan­is­mo e as condições do seu meio: uns pare­cem um cav­alo, out­os um ouriço, out­ros um marte­lo. 

  Há-​os es­pal­ma­dos e chatos, co­mo a sol­ha, que vive ar­ra­stan­do-​se na areia. 

  Há-​os fi­nos, es­guios e com as bar­batanas peitorais tão de­sen­volvi­das que se er­guem da água e voli­tam no ar, co­mo os ex­oce­tos, os ruiv­os e as an­dor­in­has-​do-​mar. 

  Uns são temerários, destemi­dos, co­mo o his­tió­foro, que at­aca o homem e faz rom­bos nos navios, ba­ten­do-​os com a sua max­ila su­pe­ri­or, saliente, pon­ti­agu­da, sól­ida co­mo aríete. 

  Out­ros têm por ar­ma preferi­da a traição, co­mo o pol­vo, de que o Padre An­tónio Vieira dá a seguinte de­scrição, su­pe­ri­or talvez à de Vic­tor Hugo:

  «O pol­vo com aque­le seu cape­lo na cabeça parece um mon­ge; com aque­les seus raios es­ten­di­dos parece uma es­trela; com aque­le não ter os­so nem es­pin­ha parece a mes­ma bran­dura, a mes­ma man­sid­ão. E de­baixo des­ta aparên­cia tão 