mod­es­ta, ou des­ta hipocrisia tão san­ta, teste­munham con­teste­mente S. Basílio e San­to Am­bró­sio que o di­to pol­vo é o maior traidor do mar. Con­siste es­ta traição do pol­vo primeira­mente em se ve­stir ou pin­tar das mes­mas cores, de to­das aque­las cores a que es­tá pe­ga­do. As cores que no ca­maleão são gala, no pol­vo são malí­cia; as fig­uras que em Pro­teu são fábu­la, no pol­vo são ver­dade e ar­tifí­cio. Se es­tá nos limos, faz-​se verde; se es­tá na areia, faz-​se bran­co; se es­tá no lo­do, faz-​se par­do; e se es­tá em al­gu­ma pe­dra, co­mo mais or­di­nar­ia­mente cos­tu­ma es­tar, faz-​se da cor da mes­ma pe­dra. E daqui o que sucede? Sucede que o out­ro peixe, in­ocente da traição, vai pas­san­do de­sacaute­la­do, e o salteador, que es­tá de em­bosca­da den­tro do seu próprio engano, lança-​lhe os braços de re­pente e fá-​lo pri­sioneiro. Fiz­era mais ju­das? Não fiz­era mais, porque nem fez tan­to; o ju­das abraçou o Cristo, mas out­ros o pren­der­am: o pol­vo é o que abraça e mais o que prende. ju­das com os braços fez o sinal, e o pol­vo dos próprios braços faz as cor­das. ju­das é ver­dade que foi traidor, mas com lanter­nas di­ante: traçou a traição às es­curas, mas ex­ecutou-​a muito às claras. O pol­vo, es­cure­cen­do-​se a si, tira a vista aos out­ros, e a primeira traição e roubo que faz é à luz, para que não dis­tin­ga cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua mal­dade, pois ju­das em tua com­para­ção já é menos traidor!»

  As al­for­recas, que ap­re­sen­tam na água a for­ma de um bar­rete de dormir, e pare­cem feitas de geleia, umas trans­par­entes co­mo vidro, out­ras cor-​de-​rosa co­mo as con­chas do mar do Sul, out­ras azuis ou opali­nas, são tão vo­razes que en­golem os crustáceos e di­gerem-​nos sem os haverem masti­ga­do.

  Do ovo da al­for­reca sai uma lar­va que se trans­for­ma num pólipo. Deste an­imal, in­teira­mente di­ver­so da al­for­reca, nascem os reben­tos que for­mam a co­mu­nidade do polipeiro. Mais tarde, do polipeiro bro­tam uns go­mos que se trans­for­mam em al­for­recas. De sorte que a al­for­reca só se re­pro­duz nos ne­tos. Não con­cebe co­mo mãe -a po­bre al­for­reca! Con­cebe co­mo avó.

  O pólipo tem uma tal força vi­tal que, de­pois de es­quar­te­ja­do, re­vive em ca­da um dos bo­cad­in­hos em que foi par­tido. Tan­tos bo­cad­in­hos, tan­tos póli­pos. In­teiro é um in­di­ví­duo: de­spedaça­do é uma família, uma co­mu­nidade, uma tri­bo.

  Se o vi­ram com o de den­tro para fo­ra, acei­ta cora­josa­mente es­ta situ­ação difí­cil: a sua pele in­te­ri­or, que se vi­rou para fo­ra, começa a res­pi­rar; a sua pele ex­te­ri­or, que se vi­rou para den­tro, começa a di­gerir. 

  Se en­gole um an­imal que se não su­jei­ta a ser di­geri­do e procu­ra fu­gir pela bo.ca por onde en­trou, que faz o pólipo? Mete pela bo­ca um braço e se­gu­ra a pre­sa no es­tô­ma­go. O es­tô­ma­go di­gere-​lhe o an­imal, mas não lhe di­gere o braço. 

  Quan­do dois póli­pos lu­tam para dis­putarem a mes­ma pre­sa, o pólipo mais forte en­gole o pólipo mais fra­co jun­ta­mente com a pre­sa que ele tin­ha agar­ra­da; em segui­da di­gere os de­spo­jos óp­ti­mos e vom­ita vi­vo o ad­ver­sário ven­ci­do. 

  As es­tre­las do mar, de cor ar­rox­ada, que tan­tas vezes apare­cem na nos­sa cos­ta, quan­do não po­dem en­golir um an­imal que lh­es re­siste, deitam o es­tô­ma­go fo­ra, e com um su­co que ele seg­re­ga en­tor­pecem o in­imi­go e de­vo­ram-​no de­pois. 

  En­tre os crustáceos, uma es­pé­cie toma­da co­mo um sím­bo­lo de retro­ces­so por aque­les que ain­da imag­inam que ela an­da às ar­recuas -o carangue­jo, o forte e prestante carangue­jo, en­car­rega­do 