do im­por­tante serviço san­itário da limpeza das pra­ias, rep­re­sen­ta, pela sua con­fig­uração e pela sua es­tru­tu­ra, a mais sól­ida, a mais poderosa, a mais ter­rív­el máquina de guer­ra que se tem in­ven­ta­do. Ao pé dessa for­taleza am­bu­lante, a força do homem ar­ma­do, cober­to de aço até aos dentes, não é mais que ir­risão e mis­éria.

  De­ve­mos agrade­cer à Na­tureza, diz Michelet, o ter feito os decápodes tão pe­quenos. De out­ro mo­do quem pode­ria com­batê-​los? Nen­hu­ma ar­ma de fo­go os morde­ria. O ele­fante teria de se es­con­der. O ti­gre teria de trepar às ár­vores. O próprio rinoceronte não teria se­gu­ra a sua pele tão ri­ja e tão im­pen­etráv­el. A es­belta elegân­cia do homem, con­tin­ua o grande es­critor, a sua for­ma lon­gi­tu­di­nal, di­vi­di­da em três partes, com qua­tro grandes apêndices, di­ver­gentes, arreda­dos do cen­tro, fazem dele, por mais que se di­ga em con­trário, um ente fraquís­si­mo. Nas ar­maduras dos guer­reiros, os grandes braços tele­grá­fi­cos, as pe­sadas per­nas pen­dentes, dão a triste im­pressão de uma criatu­ra de­scen­tral­iza­da, im­po­tente, cam­baleante, prestes a tombar ao primeiro en­con­tro. No crustáceo, pe­lo con­trário, os apêndices lig­am-​se tão jun­tos à mas­sa re­don­da, cur­ta, atar­ra­ca­da, que o menor golpe que ele dá é a grande mas­sa com­pacta que o vi­bra. Quan­do o an­imal agar­ra, cor­ta ou fu­ra, fá-​lo com to­da a força que tem, porque a sua grande en­er­gia chega até à ex­trem­idade de to­das as suas ar­mas. Tem dois cére­bros (cabeça e tron­co); mas para se re­sumir, para obter es­sa ter­rív­el cen­tral­iza­ção, co­mo se ar­ran­ja ele? Ar­ran­ja-​se sem pescoço, tem a cabeça no ven­tre. Mar­avil­hosa sim­pli­fi­cação. A cabeça reúne as­sim acu­mu­la­dos os ol­hos, as an­te­nas, as tenazes e as max­ilas. Lo­go que os ol­hos pen­etrantes vêem, as an­te­nas pal­pam, as tenazes com­primem,  as max­ilas de­spedaçam, e pe­lo la­do de trás, sem mais in­ter­mediário, es­tá o es­tô­ma­go, per­fei­ta máquina de es­mo­er, que trit­ura e dis­solve. Num re­lance, tu­do es­tá con­suma­do: a pre­sa de­sa­pare­ceu; fi­cou di­geri­da. Tu­do é su­pe­ri­or no crustáceo. Os ol­hos vêem para di­ante e para trás. Con­vex­os, ex­te­ri­ores, fac­eta­dos, abrangem uma grande parte do hor­izonte. As pinças ou as an­te­nas, órgãos de inda­gação e de avi­so, de trí­plice ex­per­imen­tação, têm na ex­trem­idade O tac­to e na base o ou­vi­do e o ol­fac­to. Van­tagem imen­sa que nós não lo­gramos. O que não se­ria a mão hu­mana, se fare­jasse, se ou­visse! Em que con­jun­to e com que rapi­dez faríamos en­tão as nos­sas ob­ser­vações! A im­pressão, dis­per­sa pe­lo con­trário en­tre três sen­ti­dos difer­entes, que tra­bal­ham sep­arada­mente, é por esse fac­to in­ex­ac­ta ou fugi­ti­va. No decápode, que tem dez pés, seis de­les são ao mes­mo tem­po mãos, tenazes e ain­da órgãos da res­pi­ração. As­sim, por via de um ex­pe­di­ente rev­olu­cionário, re­solve este guer­reiro o prob­le­ma que tan­to afli­gia o po­bre mo­lus­co: «res­pi­rar ape­sar da con­cha». A is­to, o decápode re­sponde: «Pois eu res­pi­rarei pe­lo pé, pela mão. Este pon­to fra­co -a res­pi­ração -, por onde me pode­ri­am dom­inar, colo­co-​o na pon­ta da min­ha es­pa­da, pon­ho-​o no gume das min­has ar­mas de guer­ra. Ora, que lhe to­quem ago­ra, se são ca­pazes!»

  Tal é, na  elo­quente frase de Michelet, o sábio, o pos­sante, o val­oroso, o ter­rív­el carangue­jo! Se o pren­dem à traição por al­gum dos seus mem­bros, ele mes­mo que­bra esse mem­bro e re­ti­ra-​se mu­ti­la­do. Vai com um, dois ou três pés de menos -em­bo­ra! -, ele tornará a cri­ar pa­cien