­te­mente mais um pé, mais dois, mais três, mais tan­tos pés quan­tos hou­ver sac­ri­fi­ca­do ao res­gate da sua liber­dade. 

  O carangue­jo, porém, cresce. Crescer, torn­ar­mo-​nos grandes, é para to­dos nós uma re­spon­sabil­idade grave. Para o carangue­jo é uma lamen­tosa des­graça. Tem de de­spir a sua in­vencív­el ar­madu­ra, que o su­fo­ca co­mo um es­par­til­ho de­masi­ada­mente aper­ta­do, e é obri­ga­do a ir triste, fra­co, de­sar­ma­do, para de­baixo de uma pe­dra, fab­ricar pa­cien­te­mente uma ves­ti­men­ta no­va. To­dos en­tão o des­den­ham, to­dos o mal­tratam, e, co­mo o vel­ho leão en­fer­mo, ele re­cebe sub­mis­so o coice ul­tra­joso do as­no. Nes­tas condições, re­ti­ra­do dos com­bat­es, das aven­turas, das vi­agens, en­tregue in­teira­mente à vi­da domés­ti­ca, o carangue­jo tem pela sua es­posa uma ded­icação sub­lime: quan­do ela é apri­sion­ada, ele, não po­den­do de­fendê-​la nem bater-​se por ela, vai espon­tanea­mente ren­der-​se, e en­tre­ga à dis­crição do in­imi­go a sua vi­da saudosa e viú­va. 

  O mon­stru­oso tubarão, quan­do namora­do, quan­do to­ca­do de amor, é tão desin­ter­es­sa­do co­mo o carangue­jo -talvez mais. Ao primeiro ós­cu­lo con­ju­gal. a fêmea do tubarão en­gole-​o. Ele, ren­di­do, obe­di­ente, pas­si­vo, deixa-​se ab­sorv­er, e per­manece se­manas in­teiras, in­ofen­si­vo e in­erte, es­que­ci­do da sua vo­raci­dade, da sua fome in­ex­tin­guív­el, dos seus in­stin­tos dev­as­ta­dores e per­ver­sos, in­útil, des­di­toso e líri­co, no es­tô­ma­go da sua ama­da. 

  Em pa­ga de tan­to afec­to, a es­posa tem com ele es­ta ded­icação herói­ca: não o di­gere. A úni­ca coisa que faz, ao ver que o amor con­verte o seu mari­do num poltrão, num in­útil, num im­be­cil, é acordá-​lo. Co­mo boa e hon­ra­da com­pan­heira, chama-​o à vi­da práti­ca, à ac­tivi­dade e ao de­ver, dá-​lhe os bons-​dias, e vom­ita-​o no seio das suas ocu­pações e dos seus negó­cios. 

  No­bre pro­ced­imen­to, bem di­ver­so do de out­ras fêmeas de mel­hor fama! A aran­ha, por ex­em­plo, es­sa es­posa ex­ecráv­el e in­digna, no dia seguinte ao do noiva­do põe-​se a ol­har para o mari­do com um ol­har doce, las­ci­vo, cheio de fal­si­dade e de traição; em segui­da cai so­bre ele de um salto, e, quan­do o po­bre mari­do imag­ina que vai re­ce­ber um bei­jo, ela parte-​o em bo­ca­dos e come-​o. Não lhe come só fig­urada­mente os ol­hos da cara em car­ru­agens, em toi­lettes, em ca­marotes na ópera, co­mo às vezes se vê em out­ra es­pé­cie; come-​o in­teira­mente, lit­eral­mente, pe­lo es­túpi­do praz­er de o trit­urar, de o masti­gar e de o di­gerir. Que in­dig­nidade e que abu­so de con­fi­ança! O ma­cho da aran­ha verde, ob­ser­vou o nat­ural­ista Bal­biani, que mu­da de cor du­rante o con­sór­cio e se con­verte de verde em cas­tan­ho: é de ter­ror talvez, coita­do, pen­san­do na sorte que o es­pera.

  Do cara­pau, do bara­to e ob­scuro cara­pau, ref­er­em os nat­ural­is­tas as mais cu­riosas astú­cias. O cara­pau con­strói uma es­pé­cie de nin­ho, que é a sua al­co­va, com duas por­tas. Fei­ta a casa, o cara­pau ofer­ece à es­posa o domicílio con­ju­gal. Se a es­posa se re­cusa a acom­pan­há-​lo, o cara­pau, não po­den­do apelar para os tri­bunais, que man­dam a mul­her seguir o seu mari­do, faz justiça por suas próprias mãos e le­va a fêmea para casa à força, agar­ra­da por uma bar­batana. Lo­go que a fêmea de­posi­ta os ovos, o ma­cho en­car­rega-​se de os fe­cun­dar, en­tran­do por uma das por­tas do nin­ho e ex­pul­san­do a es­posa pela por­ta con­trária. En­tão fecha a por­ta por onde a es­posa saiu e fi­ca na out­ra, de vi­gia, para que os de­mais p