rça imen­sa, so­bre­nat­ural, in­con­sciente, de que o mar é vi­va im­agem colec­ti­va e por­ten­tosa.

  Dizem, leito­ra, que são cu­riosas as pes­soas do teu sexo. Glo­ria-​te desse be­lo de­feito. A cu­riosi­dade é a primeira das grandes forças do es­píri­to hu­mano. 

  Se Sir Isam­bert Brunel não tivesse ti­do a cu­riosi­dade de ex­am­inar min­uden­te­mente o mo­do co­mo um ín­fi­mo bich­in­ho, o tere­do navalis, rói a madeira dos navios, per­furan­do-​a primeiro por um la­do, de­pois pe­lo out­ro, e en­vernizan­do a abóba­da e as pare­des dessa pas­sagem com um in­du­to para esse fim seg­re­ga­do, não se teria en­tão de­scober­to o pro­ces­so por que foi con­struí­do o túnel do Tamisa. 

  Foi con­sideran­do cu­riosa­mente a con­strução de uma teia de aran­ha que Sir Samuel in­ven­tou as pontes pên­seis. 

  A cu­riosi­dade de achar as causas da que­da de uma maçã e do as­pec­to de uma bo­la de sabão lev­ou New­ton à lei da grav­itação e Young à teo­ria da difracção da luz. 

  Se uma es­pé­cie de lune­ta ofer­eci­da a Mau­rí­cio de Nas­sau por um oculista holandês não tivesse sus­ci­ta­do em Galileu uma cu­riosi­dade semel­hante à que des­per­ta nas cri­anças o maquin­is­mo dos reló­gios, Galileu não teria de­scober­to o telescó­pio. 

  Co­mo se de­sco­briu o gal­vanis­mo? Por um ac­to de sim­ples cu­riosi­dade. Gal­vani, ex­am­inan­do o or­gan­is­mo de uma rã, no­tou que a pa­ta deste an­imal se con­traía ao con­tac­to de lâmi­nas de metais dissemel­hantes in­tro­duzi­das en­tre um mús­cu­lo e um ner­vo. Daí, a tele­grafia eléc­tri­ca. 

  Di­ante de um copo de cerve­ja, Priest­ley sente um dia a cu­riosi­dade de ex­plicar o fenó­meno da fer­men­tação. o. es­tu­do das pro­priedades do gás flu­tu­ante so­bre a su­per­fí­cie do líqui­do fer­men­ta­do lançou as bases à quími­ca pneumáti­ca. 

  Cu­vi­er, mestre de meni­nos, passe­an­do uma tarde à beira-​mar, en­con­trou na areia uma si­ba da­da à cos­ta. Da cu­riosi­dade sus­ci­ta­da no seu es­píri­to pe­lo es­tran­ho as­pec­to desse an­imal nasceu o primeiro livro do grande nat­ural­ista: o seu ad­miráv­el es­tu­do dos mo­lus­cos. 

  Hugh Miller, sim­ples can­teiro, tra­bal­han­do nu­ma pe­dreira à beira-​mar, sen­tiu a sua cu­riosi­dade tão vi­va­mente feri­da pe­los restos orgâni­cos das es­pé­cies ex­tin­tas de­scober­tas na maré baixa, que, ob­ser­van­do e com­para­ndo min­uciosa­mente o as­pec­to do so­lo e o as­pec­to dos an­imais, acabou por com­por um dos mais notáveis livros da ge­olo­gia. 

  Espre­itar pe­lo bu­ra­co de uma fechadu­ra e do­brar o cabo da Boa Es­per­ança são dois fac­tos de cu­riosi­dade: um de­sco­bre má-​cri­ação; o out­ro de­sco­bre a Améri­ca. 

  A um dá-​lhe a cu­riosi­dade para mex­er nas gave­tas dos out­ros: este é o in­dis­cre­to. Igual cu­riosi­dade le­va out­ro a re­vis­tar a África: este chama-​se Liv­ing­stone. 

  Que é pois que se deve faz­er à cu­riosi­dade para que ela não se­ja um ridícu­lo de­feito, e se­ja uma no­bre e poderosa vir­tude? Educá-​la na el­evação; dar-​lhe por ob­jec­to os seg­re­dos da Na­tureza; dar-​lhe por fim os in­ter­ess­es da hu­manidade. 

  Sabeis, min­has cu­riosas sen­ho­ras, qual é o grande mal da nos­sa ed­ucação por­tugue­sa? É o atrofi­amen­to da cu­riosi­dade. Daqui, a in­difer­ença. Da in­difer­ença, a preguiça. Da preguiça, a mis­éria, a du­pla mis­éria do de­se­qui­líbrio económi­co e do re­baix­am­en­to moral. 

  Guardai a vos­sa cu­riosi­dade, ó mul­heres; guardai-​a co­mo um tesouro pre­cioso: é por ela que pen­etrará a grande re­for­ma ur­gente da in­strução do po­vo. 

  Vós ten­des, la­tente ou mal em­pre­ga­d