a, uma grande ac­tivi­dade de es­píri­to, par­al­isa­da em nós out­ros os home­ns pe­los nos­sos es­túpi­dos hábitos de boule­vard, de café, de clube, e pela lenta nar­co­ti­za­ção cere­bral prove­niente do abu­so do taba­co e da pe­sa­da cerve­ja, fa­tal à vi­vaci­dade, que era o anti­go apaná­gio da raça merid­ion­al.

  Es­tais nas pra­ias. Em­pre­gai as lon­gas ho­ras de ócio tão es­ti­radas, tão te­diosas, tão en­er­vantes, es­tu­dan­do o mar nos seus grandes fenó­menos, nas suas por­ten­tosas cri­ações. 

  Um só mol­ho de mar, que es­ca­choa na rocha e se pul­ver­iza através dos raios do sol poente em um nevoeiro opali­no e doira­do, con­tém mais acção, mais vi­da, mais enre­do, do que to­dos os ro­mances jun­tos do Sr. Pon­son du Ter­rail. 

  Nen­hum dos nos­sos ami­gos predilec­tos, nen­hum dos nos­sos po­et­as líri­cos, nen­hum dos nos­sos es­critores fan­ta­sis­tas tem para nos ofer­ecer tan­tas co­moções, tan­to dra­ma, tan­tas histórias cu­riosas co­mo as que sabe o mar, o in­es­gotáv­el nar­rador, o doce po­eta, o vel­ho cro­nista. 

  Esse bom ami­go não nos dá uni­ca­mente as mais be­las e as mais in­ter­es­santes histórias. Quan­do es­ta­mos sãos ofer­ece-​nos os seus pe­quenos pre­sentes de amizade: as poéti­cas ilu­mi­nações fan­tás­ti­cas dos fo­gos de San­tel­mo, as péro­las, as brisas. 

  Quan­do adoe­ce­mos das com­pli­cadas en­fer­mi­dades mod­er­nas ele só nos dá tu­do aqui­lo de que pre­cisam as nos­sas na­turezas em­po­bre­ci­das e dev­as­tadas. To­do o el­emen­to da vi­da que fal­ta na ter­ra su­per­abun­da no mar. Por is­so Michelet ex­cla­ma: «To­dos os princí­pios que em ti, homem, es­tão re­unidos, tem-​nos sep­ara­dos o mar, es­sa grande pes­soa im­pes­soal. O mar tem os teus os­sos, tem o teu sangue, tem o teu calor, a tua sei­va vi­tal. Tem o que te fal­ta: a de­ma­sia da plen­itude, o ex­ces­so da força.»

  Para os Por­tugue­ses, o mar tem atrac­tivos es­pe­ci­ais. Para nós, ele é o cam­in­ho das con­quis­tas, dos de­sco­bri­men­tos, da poe­sia, da in­spi­ração artís­ti­ca, da glória na­cional. 

  A nos­sa bela ar­qui­tec­tura manueli­na,  as capelas im­per­feitas na Batal­ha e os Jerón­imos têm, na es­col­ha dos or­natos predilec­tos, na repetição de cer­tos por­menores, o pro­fun­do cun­ho marí­ti­mo; vê-​se amiúde a pre­ocu­pação do em­bar­cadiço; acha-​se a ca­da pas­so a rev­elação do mar­in­heiro .. 

  O nos­so mais be­lo livro de ver­sos é um po­ema marí­ti­mo, Os Lusíadas. 

  A mais ex­traordinária obra que em Por­tu­gal se tem es­crito em prosa é a História Trági­co-​Marí­ti­ma, uma re­lação de naufrá­gios. 

  Em nen­hu­ma out­ra lit­er­atu­ra con­heço livro que se com­pare com este. A História Trági­co-​Marí­ti­ma é a nar­ração de céle­bres catástro­fes, copi­ada lit­eral­mente da notí­cia oral, repeti­da muitas vezes por uma teste­munha pres­en­cial do ca­so referi­do. Nun­ca o tal­en­to dramáti­co pro­duz­iu ras­gos mais co­moventes, efeitos mais pro­fun­da­mente to­cantes; nun­ca a tragé­dia achou no­tas mais sen­ti­da­mente elegía­cas; nun­ca a arte de­scriti­va tornou mais pal­pi­tante e vi­va a acção nar­ra­da; nun­ca, fi­nal­mente, a ciên­cia da lin­guagem e o poder do es­ti­lo acharam para um as­sun­to for­mas mais ad­equadas, to­ques mais pro­fun­dos, sim­pli­ci­dade mais re­al, mais pitoresca, mais sug­es­ti­va, mais ca­bal­mente artís­ti­ca. Não fazem mel­hor os maiores mestres, Ésqui­lo, Shake­speare, Car­lyle.

  Na história do naufrá­gio do galeão grande S. João, o de­sas­tre de Manuel de Sousa de Sepúlve­da, a morte de sua mul­her e de seus fil­hos, que ele en­ter­ra por suas próprias mãos, con­sti­tui uma 