Title: O Marinheiro
Author: Fernando Pessoa
CreationDate: Fri Jul 24 15:49:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Feb 18 15:40:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  O Mar­in­heiro

  Fer­nan­do Pes­soa

  A pub­li­cação de O Mar­in­heiro foi gen­til­mente au­tor­iza­da pe­los herdeiros de Fer­nan­do Pes­soa.

  © 1997, Herdeiros de Fer­nan­do Pes­soa e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-84-7

  Lis­boa, Abril de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

  ***

  O MAR­IN­HEIRO

  A Car­los Fran­co

  Um quar­to que é sem dúvi­da num caste­lo anti­go. Do quar­to vê-

  se que é cir­cu­lar. Ao cen­tro er­gue-​se, so­bre uma es­sa, um caixão 

  com uma donzela, de bran­co. Qua­tro tochas aos can­tos. À di­re­ita, 

  quase em rente a quem imag­ina o quar­to, há uma úni­ca janela, 

  al­ta e es­tre­ita, dan­do para onde só se vê, en­tre dois montes longín-

  qu­os, um pe­queno es­paço de mar. 

  Do la­do da janela ve­lam três donze­las. A primeira es­tá sen­ta­da 

  em rente à janela, de costas con­tra a tocha de cima da di­re­ita. As 

  out­ras duas es­tão sen­tadas uma de ca­da la­do da janela. 

  É noite e há co­mo que um resto va­go de lu­ar. 

  PRIMEIRA VE­LADO­RA -Ain­da não deu ho­ra nen­hu­ma. 

  SE­GUN­DA -Não se po­dia ou­vir. Não há reló­gio aqui per­to. Den­tro em pouco deve ser dia. 

  TER­CEIRA -Não: o hor­izonte é ne­gro. 

  PRIMEIRA -Não de­se­jais, min­ha ir­mã, que nos en­treten­hamos con­tan­do o que fo­mos? É be­lo e é sem­pre fal­so... 

  SE­GUN­DA -Não, não fale­mos dis­so. De resto, fo­mos nós al­gu­ma coisa? 

  PRIMEIRA -Talvez. Eu não sei. Mas, ain­da as­sim, sem­pre é be­lo falar do pas­sa­do... As ho­ras têm caí­do e nós temos guarda­do silên­cio. Por mim, ten­ho es­ta­do a ol­har para a chama daque­la vela. Às vezes treme, out­ras tor­na-​se mais amarela, out­ras vezes em­palidece. Eu não sei por que é que is­so se dá. Mas sabe­mos nós, min­has ir­mãs, por que se dá qual­quer coisa?...

  (uma pausa)

  A MES­MA -Falar do pas­sa­do... is­so deve ser be­lo, porque é in­útil e faz tan­ta pe­na... 

  SE­GUN­DA -Fale­mos, se quis­erdes, de um pas­sa­do que não tivésse­mos ti­do. 

  TER­CEIRA -Não. Talvez o tivésse­mos ti­do... 

  PRIMEIRA -Não dizeis senão palavras. É tão triste falar! É um mo­do tão fal­so de nos es­que­cer­mos!...Se passeásse­mos?...

  TER­CEIRA -Onde? 

  PRIMEIRA -Aqui, de um la­do para o out­ro. Às vezes is­so vai bus­car son­hos.

  TER­CEIRA -De quê? 

  PRIMEIRA -Não sei. Por que o havia eu de saber? 

  (uma pausa)

  SE­GUN­DA -To­do este país é muito triste…Aque­le onde eu vivi out­ro­ra era menos triste. Ao en­tarde­cer eu fi­ava, sen­ta­da à min­ha janela. A janela da­va para o mar e às vezes havia uma il­ha ao longe... Muitas vezes eu não fi­ava; ol­ha­va para o mar e es­que­cia-​me de viv­er. Não sei se era fe­liz. Já não tornarei a ser aqui­lo que talvez eu nun­ca fos­se...

  PRIMEIRA -Fo­ra de aqui, nun­ca vi o mar. Ali, daque­la janela, que é a úni­ca de onde o mar se vê, vê-​se tão pouco!... O mar de out­ras ter­ras é be­lo? 

  SE­GUN­DA -Só o mar das out­ras ter­ras é que é be­lo. Aque­le que nós ve­mos dá-​nos sem­pre saudades daque­le que não ver­emos nun­ca...

  (uma pausa)

  PRIMEIRA -Não dizíamos nós que íamos con­tar o nos­so pas­sa­do? 

  SE­GUN­DA -Não, não dizíamos. 

  TER­CEIRA -Por que não haverá reló­gio neste quar­to? 

  SE­GUN­DA -Não sei... Mas as­sim, sem o reló­gio, tu­do é mais afas­ta­do e mis­te­rioso. A noite per­tence mais a si própria... Quem sabe se nós poderíamos falar as­sim se soubésse­mos a ho­ra que é? 

  PRIMEIRA -Min­ha ir­mã, em m