e­mos mais... Não ten­te­mos seguir nes­ta aven­tu­ra in­te­ri­or... Quem sabe o que es­tá no fim dela?.. Tu­do is­to, min­has ir­mãs, pas­sou-​se na noite... Não fale­mos mais dis­to, nem a nós próprias... É hu­mano e con­ve­niente que tomem­os, ca­da qual, a sua at­itude de tris­teza.

  TER­CEIRA -Foi-​me tão be­lo es­cu­tar-​vos... Não di­gais que não... Bem sei que não valeu a pe­na... É por is­so que o achei be­lo... Não foi por is­so, mas deix­ai que eu o di­ga... De resto, a músi­ca da vos­sa voz, que es­cutei ain­da mais que as vos­sas palavras, deixa-​me, talvez só por ser músi­ca, de­scon­tente...

  SE­GUN­DA -Tu­do deixa de­scon­tente, min­ha ir­mã... Os home­ns que pen­sam cansam-​se de tu­do, porque tu­do mu­da. Os home­ns que pas­sam provam-​no, porque mu­dam com tu­do... De eter­no e be­lo há ape­nas o son­ho... Por que es­ta­mos nós fa­lan­do ain­da?... 

  PRIMEIRA -Não sei... (ol­han­do para o caixão, em voz mais baixa)... Por que é que se morre? 

  SE­GUN­DA -Talvez por não se son­har bas­tante... 

  PRIMEIRA -É pos­sív­el... Não va­le­ria en­tão a pe­na fechar­mo-​nos no son­ho e es­que­cer a vi­da, para que a morte nos es­que­cesse?... 

  SE­GUN­DA - Não, min­ha ir­mã, na­da vale a pe­na ... 

  TER­CEIRA -Min­has ir­mãs, é já dia... Vede, a lin­ha dos montes mar­avil­ha-​se... Por que não choramos nós?...Aque­la que fin­ge es­tar ali era bela, e no­va co­mo nós, e son­ha­va tam­bém... Es­tou cer­ta que o son­ho dela era o mais be­lo de to­dos... Ela de que son­haria?... 

  PRIMEIRA -Falai mais baixo. Ela es­cu­ta-​nos talvez, e já sabe para que servem os son­hos...

  (uma pausa)

  SE­GUN­DA -Talvez na­da dis­to se­ja ver­dade... To­do este silên­cio e es­ta mor­ta, e este dia que começa não são talvez senão um son­ho... Ol­hai bem para tu­do is­to... Parece-​vos que per­tence à vi­da?...

  PRIMEIRA -Não sei. Não sei co­mo se é da vi­da... Ah, co­mo vós es­tais para­da! E os vos­sos ol­hos são tristes, parece que o es­tão inu­til­mente... 

  SE­GUN­DA -Não vale a pe­na es­tar triste de out­ra maneira... Não de­se­jais que nos cale­mos? É tão es­tran­ho es­tar a viv­er... Tu­do o que acon­tece é in­acred­itáv­el, tan­to na il­ha do mar­in­heiro co­mo neste mun­do... Vede, o céu é já verde. O hor­izonte sor­ri ouro... Sin­to que me ar­dem os ol­hos de eu ter pen­sa­do em chorar... 

  PRIMEIRA -Chorastes, com efeito, min­ha ir­mã.

  SE­GUN­DA -Talvez... Não im­por­ta... Que frio é este? O que é is­to?...Ah, é ago­ra... é ago­ra!...Dizei-​me is­to... Dizei-​me uma coisa ain­da... Por que não será a úni­ca coisa re­al nis­to tu­do o mar­in­heiro, e nós e tu­do is­to aqui ape­nas um son­ho dele?...

  PRIMEIRA -Não faleis mais, não faleis mais... Is­so é tão es­tran­ho que deve ser ver­dade... Não con­tin­ueis... O que íeis diz­er não sei o que é, mas deve ser de­mais para a al­ma o poder ou­vir... Ten­ho me­do do que não chegastes a diz­er... Vede, vede, é dia já... Vede o dia... Fazei tu­do por reparardes só no dia, no dia re­al, ali fo­ra... Vede-​o, vede-​o... Ele con­so­la... Não pen­seis, não ol­heis para o que pen­sais... Vede-​o a vir, o dia... Ele bril­ha co­mo ouro nu­ma ter­ra de pra­ta. As leves nu­vens arredondam-​se à me­di­da que se col­oram... Se na­da ex­is­tisse, min­has ir­mãs?...Se tu­do fos­se, de qual­quer mo­do, ab­so­lu­ta­mente coisa nen­hu­ma?...Por que ol­hastes as­sim?...

  (Não lhe re­spon­dem. E ninguém ol­hara de nen­hu­ma maneira.)

  A MES­MA – Que foi is­so que diss­es­tes e que me apa­vorou?... Sen­ti-​o tan­to que mal vi o que era... Dizei-​me o que foi, para que eu, ou­vin­do-​o se­gun­da vez, já não ten­ha tan­to me­do co­mo dantes... Não, n