ão... Não di­gais na­da... Não vos per­gun­to is­to para que me re­spondais, mas para falar ape­nas, para me não deixar pen­sar... Ten­ho me­do de me poder lem­brar do que foi... Mas foi qual­quer coisa de grande e pa­voroso co­mo o haver Deus... De­víamos já ter acaba­do de falar... Há tem­po já que a nos­sa con­ver­sa perdeu o sen­ti­do... O que é en­tre nós que nos faz falar pro­lon­ga-​se de­masi­ada­mente... Há mais pre­senças aqui do que as nos­sas al­mas... O dia de­via ter já ra­ia­do... De­vi­am já ter acor­da­do... Tar­da qual­quer coisa... Tar­da tu­do... O que é que se es­tá dan­do nas coisas de acor­do com o nos­so hor­ror?... Ah, não me aban­doneis... falai comi­go, falai comi­go... falai ao mes­mo tem­po do que eu para não deixardes soz­in­ha a min­ha voz... Ten­ho menos me­do à min­ha voz do que à ideia da min­ha voz, den­tro de mim, se for reparar que es­tou fa­lan­do...

  TER­CEIRA -Que voz é es­sa com que falais?... É de out­ra... Vem de uma es­pé­cie de longe…

  PRIMEIRA -Não sei... Não me lem­breis is­so... Eu de­via es­tar fa­lan­do com a voz agu­da e trem­ida do me­do... Mas já não sei co­mo é que se fala... En­tre mim e a min­ha voz abriu-​se um abis­mo... Tu­do is­to, to­da es­ta con­ver­sa e es­ta noite, e este me­do, tu­do is­to de­via ter acaba­do, de­via ter acaba­do de re­pente, de­pois do hor­ror que nos diss­es­tes... Começo a sen­tir que o es­queço, a is­so que diss­es­tes, e que me fez pen­sar que eu de­via gri­tar de uma maneira no­va para ex­prim­ir um hor­ror de aque­les...

  TER­CEIRA (para a SE­GUN­DA) – Min­ha ir­mã, não nos de­víeis ter con­ta­do es­ta história. Ago­ra es­tran­ho-​me vi­va com mais hor­ror. Con­táveis e eu tan­to me dis­traía que ou­via o sen­ti­do das vos­sas palavras e o seu som sep­arada­mente. E pare­cia-​me que vós, e a vos­sa voz, e o sen­ti­do do que dizíeis er­am três entes difer­entes, co­mo três criat­uras que falam e an­dam. 

  SE­GUN­DA -São real­mente três entes difer­entes, com vi­da própria e re­al. Deus talvez sai­ba porquê... Ah, mas por que é que falam­os? Quem é que nos faz con­tin­uar fa­lan­do? Por que fa­lo eu sem quer­er falar? Por que é que já não reparamos que é dia?... 

  PRIMEIRA -Quem pudesse gri­tar para des­per­tar­mos! Es­tou a ou­vir-​me a gri­tar den­tro de mim, mas já não sei o cam­in­ho da min­ha von­tade para a min­ha gar­gan­ta. Sin­to uma ne­ces­si­dade fer­oz de ter me­do de que al­guém pos­sa ago­ra bater àquela por­ta. Por que não bate al­guém à por­ta? Se­ria im­pos­sív­el e eu ten­ho ne­ces­si­dade de ter me­do dis­so, de saber de que é que ten­ho me­do... Que es­tran­ha que me sin­to!...Parece-​me já não ter a min­ha voz... Parte de mim adorme­ceu e fi­cou a ver... O meu pa­vor cresceu, mas eu já não sei sen­ti-​lo... Já não sei em que parte da al­ma é que se sente... Puser­am ao meu sen­ti­men­to do cor­po uma mor­tal­ha de chum­bo... Para que foi que nos con­tastes a vos­sa história? 

  SE­GUN­DA -Já não me lem­bro... Já mal me lem­bro que a con­tei... Parece ter si­do já há tan­to tem­po!...Que sono, que sono ab­sorve o meu mo­do de ol­har para as coisas!...O que é que nós quer­emos faz­er? O que é que nós temos ideia de faz­er? Já não sei se é falar ou não falar... 

  PRIMEIRA -Não fale­mos mais. Por mim, cansa-​me o es­forço que fazeis para falar... Dói-​me o in­ter­va­lo que há en­tre o que pen­sais e o que dizeis... A min­ha con­sciên­cia bóia à tona da sonolên­cia apa­vo­ra­da dos meus sen­ti­dos pela min­ha pele... Não sei o que é is­to, mas é o que sin­to... Pre­ciso diz­er fras­es con­fusas, um pouco lon­gas, que custem a diz­er... Não sen­tis tu­do is­to co­mo uma aran­ha enorme que nos tece de al­ma a al­ma uma teia n