Title: O Miantonomah
Author: Eça de Queirós
CreationDate: Fri Jul 24 12:46:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Sep 06 05:00:00 BST 1972
Genre: 
Description: 
  O Miantonom­ah

  Eça de Queirós

  © 1997, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-95-2

  Lis­boa, Jul­ho de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  O MIANTONOM­AH

  Há duzen­tos anos uns poucos de calvin­istas ex­ila­dos fre­taram um bar­co na Holan­da húmi­da e úbere, e sob o equinó­cio e os grandes ven­tos, mis­eráveis, aus­teros, levan­do uma Bíblia, par­ti­ram para as ban­das da Améri­ca. 

  Duzen­tos anos de­pois, estes home­ns que tin­ham ido solitários, num bar­co apo­dreci­do das mare­sias, der­ra­ma­ram uma es­quadra épi­ca pe­lo Mediter­râ­neo, pe­lo Pací­fi­co, pe­lo mar das Ín­dias, pe­lo Atlân­ti­co, pe­los mares do Norte. 

  Aque­la coló­nia de dester­ra­dos, que choravam de frio, es­fomea­dos, ro­tos, que dormi­am às hu­mi­dades do ar nu­ma ca­pa es­far­ra­pa­da, é ho­je a Améri­ca do Norte -os Es­ta­dos Unidos. 

  Améri­ca do Norte sig­nifi­ca tra­bal­ho, fé, heroís­mo, in­dús­tria, cap­ital, força e matéria. 

  Ul­ti­ma­mente via eu o Miantonom­ah, sin­istro e ne­gro caçador de es­quadras: é to­da a im­agem da Améri­ca frio, sereno, con­tente, ma­te­ri­al, e cheio de fo­gos, de es­tron­dos, de maquin­is­mos, de forças e de ful­mi­nações. 

  É o que ame­dronta naque­le navio -a frieza na força. 

  Ele rep­re­sen­ta a con­sciên­cia sober­ba da força e da in­dús­tria, e os grandes orgul­hos do cál­cu­lo: de­spreza as iras e as hos­til­idades dos el­emen­tos: ele tem de atrav­es­sar o Pací­fi­co, o oceano Índi­co, o Mediter­râ­neo, os grandes desvaira­men­tos da água, os ven­tos imen­sos, os equinó­cios, as trom­bas, as cor­rentes, os roche­dos br­us­ca­mente apare­ci­dos, os nevoeiros in­fames, os mag­netismos, as elec­tri­ci­dades, to­da a vil pop­ulaça das tem­pes­tades: en­tão to­dos os navios se preparam -corda­gens, ve­lames, mas­treações, com­pli­cações e re­sistên­cias de forças, to­da a com­bi­nação as­tu­ciosa de lonas e cal­abres que trans­for­ma as hos­til­idades em auxílios; ele, o Miantonom­ah, con­tenta-​se com uma tábua rasa.

  Em tem­po de lu­ta pre­cavêem-​se os almi­rantes e os ca­bos de guer­ra: um formigueiro de morteiros, de bom­bas, de obus­es: me­tral­has, machadas, o ar­se­nal re­luzente das abor­da­gens; a ele bas­ta-​lhe uma mu­ral­ha de fer­ro. 

  O ven­to é temi­do: nas vas­tas solidões azuis ele é o lobo sin­istro que an­da ron­dan­do e uivan­do, à caça dos navios: ele aca­len­ta o mar, mas­sa in­erte e sal­ga­da; ele faz com a água es­tran­has núp­cias fer­ozes; ex­ter­mi­na, can­tan­do com ale­grias bár­baras; es­far­ra­pa as nu­vens, persegue e es­guedel­ha as chu­vas, as­so­bian­do con­tente: em al­guns mares do Norte, quan­do ele so­pra as es­tre­las têm maior tremor: mas o grande hor­ror do ven­to é que at­aca com o pe­so, com a vi­olên­cia, com a força, com a com­pressão com­bi­na­da e de­fende-​se com o es­vaec­imen­to. 

  O Miantonom­ah é as­sim: at­aca ser­ena­mente, com vi­olên­cias enormes, com ful­mi­nações trág­icas e de­fende-​se com a im­pas­si­bil­idade e quase com o es­vaec­imen­to. 

  Na lu­ta das es­quadras, no meio das descar­gas, das tro­voadas flame­jantes, en­tre semel­hanças abrasadas, os ter­ríveis pendões do fo­go, e os fan­tas­mas do fu­mo, e as efer­vescên­cias da água -ele pas­sa, sol­ta a sua ful­mi­nação enorme, de­spedaça, esmi­gal­ha, dis­per­sa e con­tin­ua lento, frio, im­passív­el, mu­do, tene­broso, cober­to de fer­ro. 

  Ele não re­ceia o mar: os out­ros navios er­guem amu­radas imen