sas para con­ter o en­cres­pa­men­to da on­da: for­ram-​nas de co­bre, erriçam-​nas de pre­garia. O Miantonom­ah não: ele jul­ga a demên­cia do mar um pre­juí­zo; cor­ta a amu­ra­da e fi­ca com o con­vés ra­so, ao rés da água: sat­is­faz a vel­ha cu­riosi­dade da va­ga: e por mis­er­icór­dia dá-​lhe hos­pi­tal­idade: e para que o mar ten­ha al­gu­ma coisa a des­faz­er, a trit­urar, a roer -dá-​lhe por com­paixão uma varan­da de hastes de fer­ro en­fer­ru­ja­do, e pedaços de cor­da po­dre. E o mar en­tra, de­ses­per­ado, mug­in­do, e lambe o chão do navio amer­icano: em baixo nas ca­mas, agasal­ha­dos e preguiçosos, os mar­in­heiros dizem: «Lá an­da o mar a var­rer e a lavar o tombadil­ho.» E com efeito o vel­ho oceano dos dilúvios faz hu­milde­mente o serviço dos úl­ti­mos grumetes.

  Em cima, na su­per­fí­cie da água, há o ven­to, as es­pumas, os nevoeiros, as chu­vas, as trom­bas; ele, abor­reci­do, afas­ta-​se deste ban­do mis­eráv­el e vai in­ves­ti­gar o fun­do das águas, as veg­etações fan­tás­ti­cas, a região dos corais, as cav­er­nas enceládi­cas, as purezas in­fini­tas da transparên­cia, to­do aque­le anti­go ide­al fer­oz de que os vel­hos mare­antes falavam ben­zen­do-​se com ter­ror re­li­gioso: com a quil­ha de fer­ro enorme ele bru­tal­iza aque­las vir­gin­dades do mar: em baixo a trip­ulação na­da sabe das tem­pes­tades: em vão ruge o mar e torce-​se; e des­en­cadeia o jo­go ful­mi­nante das on­das, e es­pan­ca o con­vés do navio com o ruí­do de mil car­ros de batal­ha; os mar­in­heiros em baixo riem, can­tam, baloiçam-​se, pulem os aços dos maquin­is­mos, cachim­bam, lêem a Bíblia -serenos. 

  Co­mo não há mas­treação, nem ve­lame, nem corda­gens, nem to­da a amon­toação con­fusa de cal­abres e de lonas -o tombadil­ho aber­to é cheio de ar e de luz: e du­rante as vi­agens, é uma pou­sa­da das al­gas, das con­chas, das aves do mar e dos grani­zos. 

  Den­tro são as máquinas, as forças, os mo­tores tra­bal­ham solitários com vozes, im­paciên­cias, preguiças, fri­amente; co­mo as fa­tal­idades da matéria. Ao atrav­es­sar os es­paços ob­scuros vê-​se o frio luzir dos aços e os co­bres lu­mi­nosos; de­pois são as fogueiras flame­jantes, que dão a vi­da aos maquin­is­mos -ver­mel­has co­mo corações so­bre­nat­urais: o ar é de­sci­do por máquinas de res­pi­ração, pul­mões ter­ríveis; e um ven­to ger­al, fe­cun­do, bené­fi­co, es­corre con­stan­te­mente por to­do o ne­gro bo­jo: fazem-​se as­sim livre­mente tem­per­at­uras: frios mor­dentes, calores pe­sa­dos e fres­curas das man­hãs do Sul: nas suas vi­agens pe­lo mun­do aque­le navio des­mente quan­do quer os cli­mas e as tem­per­at­uras: os mar­in­heiros pas­sam si­len­ciosos, limpos, rosa­dos, graves: al­guns lêem. 

  Ora, so­bre aque­le ne­gro navio, so­bre os maquin­is­mos frios, aque­las forças pa­vorosas, aque­las fogueiras ter­ríveis, no con­vés en­tre as ne­gras tor­res, ao livre ar, ao livre sol, ale­gre, glo­rioso, gor­do, es­voaçan­do na sua gaio­la -can­ta um canário. 

  Tal é o Miantonom­ah, navio de guer­ra da Améri­ca do Norte. 

  Nós en­treve­mos a Améri­ca co­mo uma ofic­ina som­bria e re­sp­lan­de­cente, per­di­da ao longe nos mares, cheia de vozes, de col­ori­dos, de forças, de cin­ti­lações.

  En­treve­mo-​la as­sim: movi­men­tos imen­sos de cap­ital; ado­ração ex­clu­si­va e úni­ca do deus Dólar; su­per­abundân­cia de vi­da; ex­ager­ação de meios; vi­olen­ta pre­dom­inação do in­di­vid­ual­is­mo; grande sen­so práti­co; at­mos­fera pe­sa­da de pos­itivis­mos es­téreis; uma febre quase do­lorosa do movi­men­to in­dus­tri­al; aproveita­men­to avaro de to­das as forças; ex­tremo de­spre­zo pe­los t