­tas, de as­pi­rações nerál­gi­cas.

  De­pois, co­mo no meio das in­dús­trias rui­dosas e ab­sorve­do­ras muitas amar­guras fi­cam por adoçar, muitas angús­tias por ser­enar, muitas fomes por matar, muitas ig­norân­cias por alu­mi­ar, tu­do is­so se er­gue ter­rív­el no meio da febre da vi­da so­cial, e tor­na-​a mais perigosa. Lon­dres dá ho­je o as­pec­to des­ta lu­ta. 

  De maneira que o tra­bal­ho in­ces­sante, enorme, ir­ri­ta e ex­agera o de­se­jo das riquezas; afer­ven­ta o cére­bro, so­bre­ex­ci­ta a sen­si­bil­idade, a pop­ulação cresce, a con­cor­rên­cia é áspera, as ne­ces­si­dades de­scome­di­das, in­fini­tas as com­pli­cações económi­cas, e aí es­tá sem­pre en­tre riscos a vi­da so­cial. En­tre riscos, porque vem a lu­ta dos in­ter­ess­es, a guer­ra das class­es, o as­salto das pro­priedades e por fim as rev­oluções políti­cas. 

  E to­davia a liber­dade da Améri­ca parece tão ser­ena, tão con­fi­ada, tão as­sente, tão sat­is­fei­ta! 

  No en­tan­to há mui­ta força fe­cun­da nos Es­ta­dos Unidos! Ain­da há pouco de­ram o ex­em­plo glo­rioso de uma nação que deixa os seus pos­itivis­mos, a sua in­dús­tria, os seus egoís­mos, o seu pro­fun­do in­ter­esse, e ar­ma exérci­tos, es­quadras, dis­si­pa mil­hões, e vai bater-​se por uma ideia, por uma ab­stracção, por um princí­pio, pela justiça. 

  O Sul quis cor­ri­gir a liber­dade pela es­cra­vatu­ra; desune-​se; o es­cra­vo que tra­bal­he, que cul­tive, que pro­duza, que sue, que mor­ra sob a força metáli­ca, baça e sin­is­tra do cli­ma e do Sol. Pois bem. A Améri­ca do Norte quer a liber­dade, o amor das raças, e bate-​se pela liber­dade, pela le­gal­idade, pela união, pe­lo princí­pio, pela metafísi­ca! E dis­per­sa os exérci­tos da Virgí­nia! 

  Er­am es­tas as coisas que me lem­bravam há dias, no Tejo, es­tando a ver o Miantonom­ah, navio dos Es­ta­dos Unidos em vi­agem pe­lo Sul, co­man­dante Beau­mont, fun­dea­do no nos­so Tejo.

  NA PRA­IA

  Nu­ma pra­ia da Nor­man­dia, ao en­tarde­cer, di­ante do mar que lenta­mente adormece e do céu onde ape­nas res­ta a ver­mel­hidão afoguea­da e cansa­da do cor­us­cante sol que o sul­cou, es­tá es­ten­di­da so­bre a fi­na areia uma família, gozan­do a ma­jes­tade e a fres­cu­ra do crepús­cu­lo, naque­le recol­hi­men­to deco­roso que com­pete a quem alu­gou um chalé de três mil fran­cos e acar­retou de Paris cav­al­os e car­ru­agens para co­mu­nicar lux­uosa­mente com a Na­tureza. 

  No meio avul­ta forte­mente a madama, obe­sa, en­tron­ada so­bre a sua cadeir­in­ha de pal­ha, com uma boina bran­ca e, so­bre os om­bros mais lar­gos que an­cas de égua, uma capeli­na a que se sente, mes­mo de longe, a riqueza e o preço al­to. Ao la­do, o mari­do, ma­grice­las e mole, de­sen­ha ape­nas, na areia pál­ida, um traço es­curo. Out­ra for­ma en­col­hi­da, com os joel­hos agu­dos con­tra o queixo agu­do, é talvez de um par­ente po­bre ou de um par­asita. E a úni­ca lin­ha no­bre e digna, ressalta de dois cães enormes, sen­ta­dos com o focin­ho para o mar, em de­scon­fi­ança, na es­per­ta guar­da dos seus donos, aten­tos àquele ro­lar da va­ga, pe­quen­ina e lenta, mas que teimosa­mente avança para eles, es­puman­do e ros­nan­do. 

  Nes­ta beleza e nes­ta qui­etação mag­ní­fi­ca al­guém aparece, atrav­es­sa, va­garosa e pen­sativa­mente, por trás, so­bre as dunas do are­al. Aos bran­dos pas­sos, ime­di­ata­mente, os dois cães saltam latin­do com furor, ar­reme­tem con­tra aque­le temerário que ousou pis­ar a areia dos seus amos e cam­in­har para o mar dos seus amos. In­qui­eto, o mari­do corre, em largas per­nadas es­guias, de ben­gala er­gui­da, re­tendo e ameaçan­do os cães... E en­tão da vas­ta mas­sa 