da madama rompe um bra­do rouco, um bra­do áspero, um bra­do sub­lime: «Im­bé­cile! Qu'est-​ce que vous avez a gron­der ces pau­vres chéris? Eh bi­en!... Quand i1s mor­dront on paiera le médecin!» 

  Os cães recol­her­am, de rabo en­col­hi­do, sob a ameaça bal­bu­ci­ada do sen­hor. Com o dor­so ver­ga­do, o sen­hor recol­heu sob a ira sober­ana da madama. E quem vin­ha pas­san­do, pas­sou. 

  «Quan­do eles morderem se pa­gará ao médi­co!» Gri­to pre­cioso, na ver­dade, porque nele vêm re­sum­idas to­das as feal­dades de uma al­ma, co­mo por vezes, num úni­co bafo de aragem à es­quina de uma viela, vêm to­dos os fe­dores de um bair­ro su­jo. Des­de lo­go se re­con­hece que a né­dia ma­trona é uma ri­caça, uma ar­gen­tária, dona de be­los pré­dios, com um cofre pro­fun­do no Ban­co de França, longa­mente acos­tu­ma­da a co­man­dar e dis­por, se­ca­mente des­den­hosa de graças e sen­si­bil­idades, mole e to­da de ban­has por fo­ra, por den­tro to­da du­ra e de fer­ro. O seu sen­ti­men­to mais vi­vo re­side no ze­lo vi­olen­to, quase fer­oz, pe­los priv­ilé­gios de to­dos os seres que fazem es­tre­ita­mente parte da sua casa -so­bre­tu­do dos seres fa­voritos, ou porque lhe afagam o capri­cho ou porque lhe hon­ram o luxo. Nes­ta, os seres fa­voritos são os dois cães, que ev­iden­te­mente se tornaram o cuida­do supre­mo do seu va­go bo­ca­do de coração e co­mo uma parte mes­mo da sua gor­da sub­stân­cia. Ela e os seus dois cães con­stituem, por­tan­to, o uni­ver­so -o resto é uma som­bra que, co­mo to­das as som­bras, se pisa. Se os seus cães querem morder, to­da a per­na hu­mana, se­gun­do a ideia da boa madama, per­tence le­git­ima­mente aos seus cães. Que as mais be­las ou as mais úteis per­nas fiquem di­lac­er­adas -mas que os seus cães se re­galem, se sat­is­façam, provan­do, com a mes­ma den­ta­da, vi­vaci­dade, au­dá­cia e o lou­váv­el ran­cor das per­nas es­tran­has que po­dem trans­por o muro da casa sagra­da. E aque­le que im­peça os cães de fer­rar, gozar a delí­cia san­grenta de um ras­gão em carne sã, esse, na ideia da madama, será um im­per­ti­nente que pri­va os seus an­imais de uma re­galia e a ela lhe im­põe uma afronta. Por is­so, quan­do o po­bre mari­do de­spe­ga os os­sos ma­gros da areia fi­na e acode, tropeçan­do, de ben­gala tré­mu­la, ela ful­mi­na o en­tremeti­do, gri­ta fu­riosa­mente: «Im­bé­cile!» Co­mo ousou ele, com efeito, in­ter­romper «ces pau­vres chéris» no mo­men­to tri­un­fante em que eles vão, os po­bres queri­dos, es­fran­gal­ha r o homem temerário que in­vadi­ra ao crepús­cu­lo aque­la pra­ia, onde os seus donos di­ge­ri­am, e, por­tan­to, domi­navam? E é ela en­tão que os chama, quan­do eles voltam de rabo hu­mil­ha­do, os an­ima, os con­so­la, e lh­es prom­ete mu­da­mente que, noutra tarde, não serão em­peci­dos, morderão to­das as per­nas a que têm di­re­ito, por serem os cães dela, ma­trona muito ri­ca, muito né­dia e muito poderosa. 

  Ivan, o Ter­rív­el, sen­hor das Rús­sias, al­imen­ta­va os seus ur­sos fa­voritos com cri­anc­in­has de ma­ma, porque os ur­sos, po­bres queri­dos, se deleitavam com es­sa carn­in­ha muito ten­ra, de um sa­bor de leite. Era um mon­stro... Mas, no fun­do, a al­ma de Ivan não é moral­mente mais mon­stru­osa do que a des­ta bur­gue­sa do Bule­var Hauss­mann. To­da a difer­ença es­tá na largueza do poder. O sin­istro Ivan pos­suía a om­nipotên­cia -era, por di­re­ito, tão dono das cri­anças co­mo dos ur­sos, a quem po­dia, com a mes­ma se­gu­rança, ati­rar uma cri­ança ou to­do um po­vo. A roliça madama, es­sa tem a fe­ro­ci­dade sev­er­amente lim­ita­da pela polí­cia -e só não ofer­ece, to­dos os dias, uma per­na hu­mana ao dente dos seus cães porque ain­da 