 mais egoís­ta do que fer­oz, e teme para a sua própria e ri­ca pele as vi­olên­cias do Códi­go Pe­nal. A sua tor­pe al­ma, porém, é gen­uina­mente ivâni­ca.

  Co­mo o vel­ho Ivan, ela tem a supre­ma e descara­da in­difer­ença do sofri­men­to al­heio. Naque­le bo­ju­do seio não pas­sou a mais fugi­ti­va in­qui­etação pe­lo mal que fari­am os dois for­mosos bru­tos quan­do se ar­remes­saram, fu­riosos, para as dunas. Os bran­dos pas­sos po­di­am ser de uma cri­ança, desvi­ada um mo­men­to do am­paro da mãe, cor­ren­do na areia; ou os de um vel­ho, doente, alque­bra­do, frágil; ou os de uma lin­da e ale­gre ra­pari­ga no viço do seu desabrochar; ou os de um mendi­go, ou os de um príncipe... Que im­por­ta­va à obe­sa fêmea? Não era gente da casa, porque con­tra es­sa os cães não rompe­ri­am. Era ape­nas al­guém de out­ra casa, por­tan­to da out­ra hu­manidade, al­guém para cães -ex­ac­ta­mente co­mo se fos­se febra mor­ta em torno de um os­so... «Que tem que eles mor­dam?.. A ar­dente dor, o sangue pin­gan­do, uma larga feri­da a cu­rar, não a co­movem mais do que os riscos que o seu guar­da-​sol de cabo doura­do ca­va na areia. E não é pro­pri­amente nela gos­to per­ver­so e ma­te­ri­al do sangue. A vista de uma canela ras­ga­da, mes­mo pe­los seus cães, po­bres queri­dos, se­ria re­pug­nante à vas­ta madama, ofend­eria o seu amor or­deiro das coisas sãs e limpas. Não!, o que ela tem é sober­ana in­sen­si­bil­idade por to­do o sofr­er, quan­do ele não des­man­che o seu go­zo con­tín­uo e re­gra­do da vi­da. Dor que grite e se es­torça jun­to dela de­cer­to a emo­ciona, porque a in­co­mo­da; e so­lici­ta­mente fará tu­do (até em­prestará talvez a sua car­ru­agem!) para que a dor vá berrar para longe, muito re­mo­ta­mente; onde os berros não en­cham o seu ar, que res­pi­ra, de tu­mul­to e de ag­onia. Nis­to se difer­ença do bár­baro Ivan, para quem gemi­dos, con­vul­sões, sangue gol­fan­do, er­am in­com­paráveis delí­cias. Não!, a nos­sa madama já per­tence ao sécu­lo XIX, por es­ta del­icadeza afi­na­da e ed­uca­da dos sen­ti­dos re­co­brindo um fun­do de sen­ti­men­tos sel­vage­mente cruéis; e é dessas que, fug­in­do hor­ror­izadas de um de­do que se cor­tou e san­gra, per­manecem mar­more­amente desin­ter­es­sadas e ser­enas di­ante das mais som­brias des­graças morais. O vel­ho Ivan teria cor­ri­do sofrega­mente, para gozar os seus cães es­tranc­in­han­do o homem que pas­sa­va. A toucin­hen­ta madama, es­sa, de­pois de os seus cães morderem e se sa­cia­rem de­cer­to se afas­taria com a mão na face -para não pres­en­ciar, ela tão limpa e cal­ma, os gemi­dos, a no­jen­ta carne ras­ga­da.

  Mas onde a madama ab­so­lu­ta­mente se difer­ença de Ivan, o Ter­rív­el, é na certeza que tem, e em que foi rigi­da­mente cri­ada, da om­nipotên­cia do din­heiro...Quan­do eles morderem se pa­gará ao médi­co!» Es­ta é a parte pre­ciosa do seu di­to ilus­tre. Es­tá aqui to­da a moral, e to­da a re­ligião, e to­da a lei do mun­do ar­gen­tário. A rodela de ouro, o pa­pel azul do ban­co, con­stituem as úni­cas re­al­idades do uni­ver­so. Só o din­heiro im­por­ta, só pe­lo din­heiro o homem sofre, só pe­lo din­heiro o homem se con­tenta. In­gen­ua­mente, ela pen­sa que o mor­di­do se não des­olar­ia com o mal da mord­edu­ra -mas com a de­spe­sa do médi­co. Para quem vive ex­clu­si­va­mente en­tre o met­al, no cuida­do do met­al e que por is­so se met­al­izou, a per­da do met­al é a úni­ca dor ver­dadeira. Se os médi­cos fos­sem gra­tu­itos, co­mo o ar (úni­co dos qua­tro el­emen­tos que ain­da se con­ser­va rel­ati­va­mente gra­tu­ito), es­ta boa ma­trona não com­preen­de­ria que os seus cães causassem dano es­fran­gal­han­do uma per­na h