u­mana -nem que o homem da per­na real­mente pade­cesse transtorno com as den­tadas que o es­tropi­avam. Que lhe po­dia, na ver­dade, im­por­tar a feri­da des­de que o trata­men­to era gra­tu­ito? Não havia de­sem­bol­so -lo­go não havia sofri­men­to! Sucede porém, neste im­per­feito mun­do, que os médi­cos são dis­pendiosos: e, por­tan­to, a nos­sa obe­sa madama, no fun­do da sua obesi­dade, re­con­hece que os seus do­ces cães, mor­den­do, fazem um mal -porque orig­inam uma de­spe­sa. Pois bem: ela, ri­ca, muito ri­ca, pa­ga a de­spe­sa! É ex­ac­ta­mente, para o dori­do, co­mo se os médi­cos fos­sem gra­tu­itos. Que razão lhe res­ta, pois, de se queixar (e mes­mo de não quer­er ser mor­di­do) des­de que, para ele, dessa aven­tu­ra de pra­ia e cães, não re­sul­ta de­spe­sa? É ela que pa­ga, mag­nan­ima­mente. Ri­ca, muito ri­ca, pode bem pa­gar, e com gos­to, as de­spe­sas que os cães fazem nas per­nas que pas­sam. Os seus cães não se pri­vam – ela goza. É uma mera tabela de preços. Se os cães es­cav­acam um bo­ca­do do homem -ela pa­ga o bo­ca­do; se es­can­gal­ham o homem to­do -ela pa­ga o en­ter­ro.

  E esse mari­do im­be­cil (co­mo ela tão jus­ti­fi­ca­da mente gri­tou) que ideia o im­pele, quan­do as­sim corre, com a ben­gala ira­da, ameaçan­do, cas­ti­gan­do os cães? Pen­etra­do dos sãos princí­pios da sua madama so­bre o din­heiro e o mal hu­mano, ele acud­ira de­cer­to, pol­ida­mente, para poupar ao homem uma de­spe­sa... Mas não sabia o im­be­cil que ela pa­ga sem­pre ess­es gas­tos de luxo? Com que di­re­ito im­pede, pois, que os seus po­bres queri­dos, trans­porta­dos àquela pra­ia da Nor­man­dia para are­jar e recrear, saltem às canelas que não são do seu ran­cho? Esse seu movi­men­to ar­rebata­do de ben­gala nasce­ria de uma baixa in­qui­etação de avar­en­to? As­sim ela de­cer­to o pen­sa: por is­so o in­juria. Re­tendo os cães, o ma­grice­las só procurou talvez econ­omizar sor­di­da­mente uma con­ta de médi­co!... Quan­to cus­taria o con­ser­to da per­na? Trezen­tos fran­cos? E por trezen­tos fran­cos, en­tão, ele rou­ba aos seus cães um go­zo e os hu­mil­ha pub­li­ca­mente, e dá pub­li­ca­mente uma pro­va de adun­co apego ao din­heiro, naque­la pra­ia onde alu­garam um chalé de três mil fran­cos, com cocheiras! Im­be­cil, es­can­dalosa­mente im­be­cil!

  Madama ao menos mostrou a sua largue­sa gen­erosa – pronta a pa­gar qual­quer per­na, por mais valiosa, que os seus cães con­sumirem. E é por is­so que o acha im­be­cil e o de­spreza -porque, ao la­do dele, se sente mag­nân­ima e sen­sív­el. Sim, mag­nân­ima, sen­sív­el! Nun­ca ela bru­talizaria os seus cães por eles mostrarem ale­gria e força! Nun­ca ela con­sen­tiria que homem mor­di­do pe­los cães de­sem­bol­sasse din­heiro, pre­cioso din­heiro, na cus­tosa cu­ra das feri­das!...E talvez ante aque­la grave e fres­ca paz do crepús­cu­lo de Jul­ho, que lenta­mente se es­ten­dia so­bre a ter­ra e o mar, a né­dia ma­trona res­pi­rasse con­tente, porque desin­ter­es­sada­mente, di­ante do céu e do mar, que nun­ca a con­vi­darão a jan­tar nem a saudarão no Bois, mostrara mag­na­nim­idade e mostrara sen­si­bil­idade!

  É uma fera, uma de­se­le­gante fera, com aque­la de­formi­dade adi­posa que só tem a fera hu­mana quan­do é fêmea? Não. É uma madama civ­iliza­da do Bule­var Hauss­mann. So­mente, é uma dessas al­mas es­pe­cial­mente se­cas e duras, co­mo as têm feito, na sua classe, des­de o reina­do de Luís Fil­ipe, a democ­ra­cia, o pre­domínio do din­heiro, a ed­ucação pos­iti­va e a decadên­cia do Evan­gel­ho.

  MAR MOR­TO

  A imen­sa água es­tende-​se até ao hor­izonte pro­fun­da­mente azul, pe­spon­ta­da de luz de am­bos os la­dos, co­mo fazen­do-​lhe u