ma margem in­fin­da: de um la­do a mon­tan­ha da Judeia, do out­ro, o Moab es­tende-​se à es­quer­da.

  A luz suave (…) ca­da vez mais diá­fana (...) a rocha visív­el aqui e além, no fun­do lu­mi­noso de va­porosa e sub­til transparên­cia. 

  A água do mar é amar­ga e cáus­ti­ca. 

  Para trás es­tende-​se o grande vale do Jordão. 

  Ao fim da planí­cie começa a pis­ar-​se uma veg­etação se­ca, queima­da, es­pal­ha­da em tu­fos. En­con­tra-​se um braço do Jordão que faz um desvio pela ter­ra den­tro, pela areia, cor­ta­da nesse lu­gar a pique, de­sa­pare­cen­do de­pois en­tre a veg­etação. 

  As mar­gens por onde se chega são cober­tas de ár­vores, de es­tevas, de jun­cos. Aque­la veg­etação tem um as­pec­to es­téril de queima­da, de se­ca, que lhe dá uma di­afanei­dade, uma transparên­cia ex­traordinárias, e so­bre­tu­do um tom de verde-​páli­do. 

  Es­sas mar­gens são ain­da cor­tadas a pique e para além das duas fi­tas de veg­etação pol­ida (…) o de­ser­to, a es­cu­ra e des­ola­da planí­cie de Acre. Es­con­di­do as­sim en­tre a fol­hagem, per­di­do na baixa, avis­ta­do, às vezes, ape­nas por trás da ra­magem, pe­lo bril­ho da sua água, o Jordão tem um pro­fun­do mis­tério. 

  Duas coisas se tor­nam dig­nas de atenção (…) a recor­dação evangéli­ca e a in­es­per­ada fres­cu­ra. 

  De­pois de se atrav­es­sar aque­le largo de­ser­to da Judeia e a planí­cie do mar Mor­to, os mur­múrios da água, o cor­rer monótono da cor­rente. Tu­do lhe dá um en­can­to ex­traordinário. No sí­tio em que es­ta­mos o Jordão faz uma das suas in­úmeras cur­vas, vê-​se azul ape­nas co­mo um la­go. No en­tan­to a veg­etação en­co­bre o lu­gar de onde ele vem, e ocul­ta a con­tin­uação do seu cam­in­ho para o mar Mor­to. 

  Umas águas tur­vas pas­san­do larga­mente so­bre as pe­dras soltas, o ruí­do do lento cor­rer com um mur­múrio monótono, tal é o Jordão nesse sí­tio. Em vol­ta os jun­cos com veg­etação pál­ida e rara -a areia es­téril... 

  O mur­múrio so­bre as pe­dras é o úni­co ruí­do. 

  A ho­ra do pôr do Sol é ad­miráv­el, e aque­le imen­so es­paço de água de uma serenidade in­con­ce­bív­el. 

  É bem este o lu­gar de re­fú­gio, de oração, de tris­teza de S. João. 

  Com­preende-​se quan­tos do­ces pen­sa­men­tos de­vem nascer da con­tem­plação das suas mar­gens. Vaguear ali deve ser um son­ho para os es­píri­tos re­peli­dos pela as­pereza da Judeia. 

  Vê-​se que, col­ori­do de doçu­ra, o Jordão de­via ter da­do aque­las ideias (…).

  As veg­etações re­flectem-​se na água, e a água corre, a luz fin­da do­ce­mente co­mo um jus­to, e de­pois da fadi­ga da jor­na­da uma doce melan­co­lia pen­etra o ser ner­voso. Em que qual­idade en­trou ele para o cris­tian­is­mo, pela im­pressão que fez ao fun­dador, quem o sabe? Quem sabe se é ao Jordão e às suas mar­gens, do­ces no meio da as­pereza de tu­do, que o Evan­gel­ho tem aque­la doçu­ra de au­ro­ra? 

  Aqui, só palavras do­ces de­vi­am ter in­spi­ra­do Cristo. Não é co­mo a as­pereza das pe­dras que às vezes lhe ar­ran­ca­va palavras amar­gas. 

  O nos­so beduíno faz as suas orações -e la­va-​se no Jordão. 

  A saí­da do Jordão -es­plên­di­do quadro. 

  Começa-​se a en­trar na ter­ra se­ca, es­bran­quiça­da, salp­ida­da de er­vas, es­tende-​se pe­lo largo hor­izonte, lim­ita­do pelas mon­tan­has do Moab e da Judeia -enormes mu­ral­has daque­la rua onde o Jordão corre, o mar Mor­to dorme. 

  O Sol vai a de­scer por trás de grandes nu­vens es­curas (...) de­trás de­las os raios do sol apare­cem (...) semel­han­do um troféu. A luz es­pal­ha-​se pela imen­sa planí­cie, dé­bil, que­bra­da, (...) o monte de areia bran