Title: O Navio dos Mortos
Author: Joaquim Paço D'Arcos
CreationDate: Fri Jul 24 11:17:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Mar 25 09:00:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  O Navio dos Mor­tos

  Joaquim Paço D’Ar­cos

  A pub­li­cação de O Navio dos Mor­tos, ex­traí­do do livro O Navio dos Mor­tos e Out­ras Nov­elas, foi gen­til­mente au­tor­iza­da pe­los herdeiros de Joaquim Paço D’Ar­cos.

  © 1996, Herdeiros de Joaquim Paço D’Ar­cos e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-70-7

  Lis­boa, Janeiro de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  O NAVIO DOS MOR­TOS

  Es­tá­va­mos to­dos sen­ta­dos em vol­ta da mesa grande da sala de es­tar. Miss Mann, a sim­páti­ca e in­teligente hos­pedeira, havia muito que nos servi­ra o chá; já to­dos, até, o havíamos toma­do, mas pare­cia que não tín­hamos pres­sa de recol­her aos nos­sos quar­tos, ape­sar de ir muito pas­sa­da a meia-​noite. Sen­tíamo-​nos bem naque­la sala con­fortáv­el, cu­jo agasal­ho nos pren­dia, e a con­ver­sação, em­bo­ra um pouco ar­ras­ta­da, tam­bém não pare­cia abor­recer-​nos.

  Tín­hamos as­sis­ti­do, no Shake­speare Memo­ri­al The­atre, à rep­re­sen­tação, de «An­tónio e Cleó­pa­tra», e a con­ver­sa gi­ra­va à vol­ta do in­ter­esse da peça e dos méri­tos do de­sem­pen­ho.

  Eu fo­ra para a pe­que­na cidade do War­wick­shire des­cansar das fadi­gas de duas tu­mul­tu­osas se­manas de tra­bal­ho em Lon­dres; co­mo de out­ras vezes, hospedara-​me na pe­que­na pou­sa­da que o British Coun­cil man­tém aber­ta na cidade na­tal de Shake­speare, para os es­critores, artis­tas e es­tu­diosos que de­man­dam as il­has Britâni­cas e apre­ci­am re­pousar dos sola­van­cos das vi­agens e das lides profis­sion­ais em am­bi­ente de arte, qui­eto, e em pais­agem suave e acol­he­do­ra.

  Es­ta­va ali hospeda­do havia uma se­mana. Trazia em mãos os primeiros capí­tu­los dum ro­mance que começara a es­cr­ev­er em Vichy e de que os tra­bal­hos e a ag­itação de Lon­dres me tin­ham com­ple­ta­mente afas­ta­do. Naque­la at­mos­fera, sin­gu­lar­mente propí­cia ao la­bor literário, ten­tara afas­tar o es­píri­to das pre­ocu­pações ofi­ci­ais que havi­am co­man­da­do to­dos os meus pas­sos lon­dri­nos e procu­rara re­gres­sar ao con­vívio das per­son­agens de ficção que troux­era para o proscénio da obra em começo. Mas a ver­dade era que a cal­ma do re­fú­gio bus­ca­do não me pro­por­cionara a es­per­ada in­spi­ração literária. Em pas­seios pe­los arredores verdes de Strat­ford, em leituras ligeiras, nas con­ver­sas com os com­pan­heiros da pou­sa­da, vin­dos dos qua­tro can­tos do mun­do, na as­sistên­cia, após o jan­tar, aos es­pec­tácu­los do teatro de Shake­speare, havi­am desliza­do aque­les dias breves, quase sem ter acres­cen­ta­do uma lin­ha ao livro que ali me pro­pusera adi­antar.

  Miss Mann troça­va dos meus bons propósi­tos e da in­dolên­cia que me não deix­ava efec­tivá-​los. Sen­tia-​me, na ver­dade, tão in­do­lente co­mo afas­ta­do das fig­uras e da in­tri­ga do ro­mance que er­guera, vi­vo, na imag­inação e que me sur­gia, ago­ra, mor­to, nas pági­nas bran­cas que me re­cusa­va a es­cr­ev­er. Out­ras fig­uras, mais reais e não menos cu­riosas, pren­di­am a min­ha re­ten­ti­va. 

  Es­tá­va­mos sen­ta­dos em vol­ta da mesa, com ex­cepção do pro­fes­sor Hu, que, não ten­do ido ao teatro, se man­tivera um pouco afas­ta­do e preferi­ra, às cadeiras hir­tas, a co­mo­di­dade da poltrona de cabe­dal. A co­mo­di­dade da poltrona e o can­to de som­bra em que nem a luz eléc­tri­ca nem as nos­sas vozes o mo­lestavam. To­dos com­preendíamos e re­speitá­va­mos o seu al­hea­men­to e havíamos 