sem­pre procu­ra­do dis­traí-​lo sem lhe forçar­mos a con­vivên­cia. Se havia homem que tivesse di­re­ito ao silên­cio e à med­itação era aque­le. 

  Mrs. Whar­ton, que viera de Kansas City preparar uma tese so­bre o teatro de Shake­speare, aprovei­tan­do a per­manên­cia do mari­do nas il­has Britâni­cas em mis­são menos literária e tam­bém menos pací­fi­ca, era a mais rui­dosa do grupo, Ela, Made­moi­selle Jacque­line Malet, que se li­cen­cia­ra na Sor­bonne em filolo­gia ger­mâni­ca e an­da­va pela Inglater­ra a con­cluir cur­sos de es­pe­cial­iza­ção –, as duas e a nos­sa hos­pedeira con­sti­tuíam a mi­no­ria fem­ini­na no grupo de nove que naque­la noite for­má­va­mos, Os restantes er­am o pro­fes­sor Fawzi, um ne­gro su­danês que en­si­na­va História na Uni­ver­si­dade de Khar­toum e em cu­jas veias cor­ria, quente e es­curo, o sangue dos dervix­es que havi­am mor­to o gen­er­al Gor­don, aban­don­ado por Glad­stone à fúria dos sen­hores do de­ser­to e chora­do, em pran­to, pela rain­ha Vitória; o doutor No­jalkhane, cat­edráti­co de Quími­ca na Uni­ver­si­dade de Teerão e que o gov­er­no do Xá in­cumbi­ra de vir à Grã-​Bre­tan­ha pôr em dia os con­hec­imen­tos per­sas em matéria de trans­for­mação dos car­bu­rantes; o ma­jor Whar­ton, que troux­era de Kansas City a ideia ar­reiga­da e in­disc­re­ta­mente apre­goa­da de que a Inglater­ra já não era a sede dum im­pério, mas um por­ta-​aviões de­sco­mu­nal a meio cam­in­ho en­tre Wash­ing­ton e Mosco­vo; Sopho­cles Panayetis, o po­eta grego que fo­ra, na úl­ti­ma guer­ra, o can­tor da re­sistên­cia herói­ca do seu país aos in­va­sores íta­lo e ger­mâni­co; o doutor Hu e eu. Até ao dia an­te­ri­or havíamos ti­do por com­pan­heiros al­guns in­gle­ses, artis­tas, pro­fes­sores e fun­cionários do British Coun­cil; na man­hã seguinte out­ros viri­am, pois a Pou­sa­da de Strat­for-​on-​Avon tin­ha a por­ta sem­pre aber­ta aos vis­itantes. Mas naque­la noite, por cu­rioso aca­so, com ex­cepção da hos­pedeira, só es­trangeiros, vin­dos dos mais opos­tos pon­tos do globo, se en­con­travam re­unidos naque­le re­can­to tran­qui­lo e abri­ga­do da Meca es­pir­itu­al do mun­do an­glo-​saxóni­co. 

  Na cidade, nas casas, no teatro, nas igre­jas, em to­da a parte se res­pi­ra­va uma at­mos­fera shake­speare­ana; des­de a casa de madeira de Hen­ley Street, onde o semideus do teatro dramáti­co viu a luz em dia de S. Jorge, até à Igre­ja da San­tís­si­ma Trindade, em que jaz en­ter­ra­do, em to­dos os lu­gares, por to­dos os cam­in­hos, o mes­mo am­bi­ente evoca­ti­vo nos rodea­va, quase nos tor­nan­do tam­bém em per­son­agens dos dra­mas evo­ca­dos no tabla­do do Memo­ri­ai The­atre. 

  E, pe­lo menos, um de nós, naque­le grupo het­erogé­neo, sofria as amar­guras dum dra­ma es­tran­ho e cru­el que bem po­dia ter servi­do de en­tre­cho a uma peça do fil­ho ge­nial de Mary Ar­den, mul­her de John Shake­speare. To­dos re­speitá­va­mos o pro­fun­do acabrun­hamen­to do doutor Hu; sabíamos que ele vivia os dias mais an­gus­tiosos da ex­istên­cia, bem ex­per­imen­ta­da, al­iás, du­rante os lon­gos anos da guer­ra em que o in­va­sor nipóni­co re­tal­hara a sua pá­tria com as ar­mas mod­er­nas dos samu­rais; com­preendíamos que ele tivesse ido ali bus­car, na qui­etação do lu­gar e na com­pan­hia disc­re­ta de gente ab­so­lu­ta­mente al­heia ao ca­so trági­co que tão de per­to o fe­ria, re­pouso para o es­píri­to cansa­do e paz para a al­ma magoa­da. Não queríamos en­volvê-​lo no de­bate, mas não de­se­já­va­mos, igual­mente, dar-​lhe a im­pressão de que o olvidá­va­mos. Ele, em sua sus­cep­ti­bil­idade, pode­ria supô-​lo; nós, porém, mes­mo que quisésse­mos, não 