re­tende­ria ser o úni­co pos­suidor. 

  Ao sé­ti­mo dia de pesquisas Kêng Wei foi de­ti­do. Não havia ain­da uma pro­va ca­bal e as pre­sunções da Polí­cia es­bar­ravam de en­con­tro à sua neg­ati­va vee­mente e ao vig­or das suas ré­pli­cas sagazes de ad­vo­ga­do. Mes­mo as­sim, teve de tro­car os aposen­tos lux­uosos de Saint James Court pe­lo cal­abouço húmi­do da Scot­land Yard, ali à beir­in­ha do Tamisa, em cu­jas águas apare­cera, pre­so pe­lo vesti­do a um fer­ro de bar­caça, o cor­po frio de A-​lin. 

  En­tregues as in­ves­ti­gações, por diligên­cia do pro­fes­sor Hu, que su­pusera servir o fil­ho e só lhe apres­sou a per­da, a um in­spec­tor su­pe­ri­or da famosa or­ga­ni­za­ção poli­cial, várias vezes ao dia e ao lon­go da noite o no­vo in­quiri­dor man­da­va chamar Kêng Wei à sua pre­sença e enc­eta­va o in­ter­ro­gatório com as mes­mas, teimosas per­gun­tas: -Porque disse a sua mul­her, no dia em que ela de­sa­pare­ceu, que havia de mor­rer sem ter caixão? Cumpriu bem a promes­sa. Porque a ma­tou?

  E a frase, repeti­da e marte­la­da aos seus ou­vi­dos, na própria lín­gua -Si, m'hou cong-​choi –, pas­sou a persegui-​lo, na cela es­tre­ita, co­mo se es­pec­tros tivessem pres­en­ci­ado o crime e se er­guessem, ago­ra, para o acusar.

  O iso­la­men­to foi o seu maior in­imi­go; to­da a força de ân­imo com que fin­gi­ra aux­il­iar as pesquisas e com que de­pois ten­tara faz­er frente ao cer­co poli­cial, to­da ela se es­vaiu no silên­cio as­fixi­ante da cela, que só os ruí­dos do rio dis­tan­te­mente que­bravam -do rio onde vog­ara o cadáver de A-​lin -e em que reper­cu­tia a frase fatídi­ca, pe­los in­ves­ti­gadores marte­la­da e por ele em ob­sessão repeti­da: Si, m'hou cong-​choi. 

  Na quar­ta noite de in­ter­ro­gatório Kêng Wei fez con­fis­são com­ple­ta; que­bra­da a ten­são daque­les dias ter­ríveis, voltou lo­go a es­tar sen­hor de si; e di­tou ele próprio, sem uma hes­itação, o de­poi­men­to que havia de o con­duzir à for­ca. 

  Não perdeu tem­po a de­scr­ev­er co­mo praticara o crime; as­fix­iara a mul­her e lançara-​a ao Tamisa; co­mo a as­fix­iara, co­mo trans­portara o cadáver até á margem do rio, er­am por­menores que, na sua es­cala de val­ores, não tin­ham im­portân­cia. O que con­ta­va er­am os mo­tivos, as razões poderosas que o havi­am im­peli­do a dis­por da vi­da al­heia, da que mais pre­ciosa lhe de­via ser, da que se con­fi­ara à sua guar­da e desvelo, e fri­amente, bar­bara­mente liq­uidara. Fiz­era-​o em cumpri­men­to dum de­ver; ele não se per­ten­cia a si, mas ao seu po­vo sofre­dor e fam­into; to­dos os re­cur­sos da cul­tura e preparação in­telec­tu­al que adquiri­ra, to­dos os bens ma­te­ri­ais de que pudesse dis­por ou de que se pudesse as­sen­hore­ar –, tu­do de­ve­ria ser colo­ca­do ao serviço da causa que res­gataria o po­vo chinês da mis­éria sec­ular e lhe daria, pe­lo rig­oroso cumpri­men­to dos pre­ceitos de Marx, igual­dade no usufru­to dos bens ter­renos, ven­tu­ra e dig­nidade. O tem­po dos ser­vos find­ara; os coolies não ar­ras­tari­am mais os jirinkshás, co­mo gril­hetas; as fomes cícli­cas deixari­am de aniquilar, nas provín­cias re­mo­tas do seu país, mil­hões de seres hu­manos, porque o Es­ta­do poderoso se in­cumbiria da tare­fa prev­idente que o cap­ital­is­mo sem­pre de­sprezara; have­ria ain­da uma guer­ra, a que ar­ran­car­ia ao cap­ital­is­mo egoís­ta do Oci­dente, de que a cidade em que o havi­am pren­di­do era a metrópole em decadên­cia, a hege­mo­nia que det­inha mer­cê da es­cravidão das mas­sas; mas, de­pois, uma no­va era sur­giria e nela não have­ria lu­gar para a inu­til­idade das vi­das e das for­tu­nas con­sagradas à cat­alo­gação de ob