jec­tos anti­gos, de porce­lanas raras. Ele, Kêng Wei, quis­era faz­er de A-​lin uma mul­her con­sciente dos de­veres que a for­tu­na e a cul­tura lhe im­pun­ham para com os seus com­pa­tri­otas faméli­cos e de­spro­te­gi­dos. Doutri­nara-​a per­sis­ten­te­mente; ofer­ecera-​lhe em segui­da o apoio do seu braço e o amor de es­poso para a guiarem na sen­da que ela, soz­in­ha, não saberia tril­har. Ela aceitara-​o para mari­do, mas -só de­pois ele o ver­ificara -re­cusara-​se a ser a com­pan­heira da cruza­da a que tu­do de­vi­am con­sagrar, des­de os pen­sa­men­tos con­stantes à for­tu­na quase ilim­ita­da. O fos­so, ver­dadeiro e pro­fun­do, en­tre eles, abri­ra-​se só de­pois que par­til­havam do mes­mo leito e que havi­am jun­ta­do as vi­das, afi­nal inu­til­mente. Era ver­dade que ela o ama­va des­de os tem­pos de es­tu­dante; de­ra-​lhe provas da sua sub­mis­são, co­mo mul­her; mas ele não lhe pud­era ver­gar o es­píri­to e vencer a tendên­cia bur­gue­sa, es­tig­ma hor­rív­el her­da­do com a for­tu­na. Para A-​lin, a riqueza da­va di­re­itos, não im­pun­ha obri­gações; ad­min­is­trar bem o que era seu, mul­ti­plicá-​lo para os fil­hos que viessem, aproveitar os praz­eres do mun­do e re­gres­sar, quan­do fati­ga­da, ao palacete tran­qui­lo de Macau, au­men­tar, com amor, a colecção das porce­lanas poli­cro­madas, dedicar-​se ao es­tu­do dos ob­jec­tos mor­tos en­quan­to os seres vivos defin­havam sem mere­cerem se­quer um ol­har con­doí­do, era um pro­gra­ma de ex­istên­cia, a cumprir, a praticar, sem sol­idariedade in­úteis com os que não tin­ham bens para fruir, peças de porce­lana para colec­cionar, palacetes para re­sidir. A ho­ra que vivi­am era grave de­mais para que a pos­suido­ra du­ma di­lata­da for­tu­na pudesse teimar na cegueira de semel­hante pro­ced­imen­to; na sua pá­tria trava­va-​se a lu­ta de­ci­si­va en­tre os de­fen­sores das no­vas ideias e os diri­gentes cor­rup­tos que du­rante duas dé­cadas, à som­bra dum fal­so pa­tri­otismo e da farsa da re­sistên­cia ao in­va­sor nipóni­co, havi­am sorvi­do to­da a riqueza, to­do o hú­mus e to­do o sangue da Chi­na. Ele con­sor­cia­ra-​se para que a riqueza adquiri­da pe­lo casa­men­to re­vertesse, in­teira, para o serviço da causa pre­cisa­da de to­das as aju­das. Era necessário ar­mar os exérci­tos que im­plan­tari­am a no­va or­dem de coisas; para tal tor­navam-​se pre­cisas di­visas es­trangeiras, pois que não era com a moe­da sem val­or du­ma nação exangue que se adquiri­am aviões e tan­ques. O de­ver de A-​lin era pôr os enormes haveres, os de­pósi­tos fab­ulosos nos ban­cos, ao serviço dessa causa sagra­da. Fo­ra porque ela se re­cusara ter­mi­nan­te­mente a fazê-​lo que ele tivera de a matar.

  Es­ta ver­são as­som­brosa dos mo­tivos que havi­am in­spi­ra­do o crime fo­ra di­ta­da por Kêng Wei, num in­glês cor­rec­to mas de so­taque amer­icano, a um es­crivão atóni­to, co­mo se em tri­bunal es­tivesse a pro­ferir fri­amente as suas ale­gações de ad­vo­ga­do. 

  Quan­do a con­fis­são do in­crim­ina­do e os pre­tendi­dos mo­tivos por que agi­ra foram tor­na­dos públi­cos, a Em­baix­ada e o Con­sula­do do seu país, ocu­pa­dos ain­da pe­los rep­re­sen­tantes daque­le «poder cor­rup­to» de que ele se declar­ava in­imi­go mor­tal, aban­donaram-​no lo­go à sua sorte pouco in­ve­jáv­el. O po­bre pro­fes­sor Hu, que du­rante a guer­ra in­teira vagueara pela Chi­na, quase com os trastes da uni­ver­si­dade às costas, co­mo per­son­agem da «farsa de re­sistên­cia ao in­va­sor nipóni­co», tombou de muito al­to no la­je­do da re­al­idade ao ler, por de­fer­ên­cia es­pe­cial dos di­rec­tores da Scot­land Yard, a min­uta com­ple­ta das declaraç