es do in­crim­ina­do. Mes­mo as­sim, o sen­ti­men­to pa­ter­no e a noção do de­ver im­puser­am-​se-​lhe sem uma hes­itação. Lev­an­ta­da a in­co­mu­ni­ca­bil­idade do fil­ho, lo­go o procurou na cela. En­tre a úl­ti­ma vez que o vi­ra, já de­pois do de­sa­parec­imen­to de A-​lin, e este primeiro en­con­tro, no cárcere, um fac­to só ocor­rera: o da con­fis­são, Esse fac­to bas­tou, to­davia, para que fos­se out­ro, com­ple­ta­mente no­vo para ele, o vul­to que de­fronta­va. Ver­ifi­cou, com pas­mo, que não con­hecia o próprio fil­ho, a ser ver­dadeira es­ta per­son­agem du­ra, im­placáv­el, que lhe fala­va do ux­oricí­dio prat­ica­do co­mo de mero cumpri­men­to dum desígnio su­pe­ri­or, em que nem as ví­ti­mas nem os ex­equentes con­tavam, mas só o fim a atin­gir. Ele não al­cançara o seu ob­jec­ti­vo, o de colo­car a for­tu­na de A-​lin in­teira­mente ao serviço da causa, e por is­so par­til­haria do des­ti­no da mul­her; em vez de apare­cer a boiar no Tamisa, fi­caria a balouçar-​se nu­ma for­ca. 

  O vel­ho pro­fes­sor saiu daque­la primeira visi­ta ao pre­so com­ple­ta­mente acabrun­hado, to­tal­mente es­ma­ga­do. Tu­do fo­ra in­útil: os sac­ri­fí­cios que fiz­era, a ed­ucação que lhe de­ra, as es­per­anças que nele colo­cara. Nos anos em que per­cor­rera, acos­sa­do pe­los Nipóni­cos, os tril­hos in­find­áveis da vel­ha Chi­na, o fil­ho afas­tara-​se dele a pon­to de se mu­dar para out­ro mun­do; pois que ele cria na sin­ceri­dade de Kêng Wei, não o supun­ha movi­do por sór­di­da co­biça pes­soal, mas im­peli­do pela no­va mís­ti­ca, ce­ga e in­ex­oráv­el. E en­tão é que to­da a dis­tân­cia en­tre os dois se rev­ela­va, de súbito, ao seu es­píri­to. Ele per­ten­cia a um mun­do anti­go que du­rante sécu­los su­pusera cul­ti­var os val­ores morais e ama­ra os mo­tivos eter­nos de beleza; ver­dade era que nesse mun­do mor­ria mui­ta gente de fome; mas nele o homicí­dio era um crime e o cul­to da arte e do be­lo per­mi­tia aos pro­fes­sores e aos sábios con­tin­uarem a lec­cionar, por en­tre o tur­bil­hão das guer­ras, as poe­sias que os im­per­adores, os man­darins e os le­tra­dos tin­ham com­pos­to, nas ho­ras fe­lizes de ócio, havia vinte, havia trin­ta sécu­los. Ago­ra, no mun­do no­vo, a fome, da­da por Deus co­mo a far­tu­ra, é que era o crime; o homicí­dio era parcela necessária do remé­dio e a poe­sia inu­til­idade bafien­ta a co­brir o egoís­mo dos que não tin­ham fome. Ele e o fil­ho er­am, na ver­dade, habi­tantes de dois mun­dos com­ple­ta­mente di­ver­sos. E só ago­ra o com­preen­dia! Des­de o dia, an­te­ri­or à guer­ra, em que Kêng Wei, ra­paz­ito no­vo, par­ti­ra para a uni­ver­si­dade, nun­ca mais tivera com ele uma con­ver­sa séria. Nun­ca lhe fal­tara com a remes­sa tele­grá­fi­ca para o sus­ten­to e ed­ucação; en­viara-​lhe as bênçãos, pe­lo matrimónio, e ofer­tara-​lhe uma daque­las poe­sias in­úteis que er­am afi­nal o al­vo do seu sar­cas­mo. Sem quer­er, o pro­fes­sor Hu en­con­trou-​se, sen­ti­men­tal­mente, do la­do de A-​lin, a po­bre ra­pari­ga que apare­cera a boiar no Tamisa e que tan­to ama­va as coisas de arte, a suave poe­sia da vi­da e por elas, afi­nal, mor­rera. 

  Kêng Wei não se con­fiou aos de­fen­sores es­col­hi­dos pe­lo pai e pre­tendeu con­duzir a própria de­fe­sa. O seu ca­so tornou-​se, rap­ida­mente, um car­taz políti­co, ag­ita­do por uns e out­ros à mer­cê das di­ver­sas con­vicções. A im­pren­sa con­ser­vado­ra, o severo Dai­ly Tele­graph, o au­da­cioso Dai­ly Mail tomaram-​no co­mo ex­em­plo dos pro­ces­sos marx­is­tas e das aber­rações a que pode levar uma mís­ti­ca ce­ga, servi­da por agentes de sádi­ca cru­el­dade e de es­crú