pu­los nu­los. O Dai­ly Work­er, órgão do Par­tido Co­mu­nista, de­nun­ciou Kêng Wei, co­mo crim­inoso vul­gar, as­sol­da­do pe­los plu­to­cratas para lançar o labéu da sua façan­ha re­pug­nante so­bre uma causa límp­ida e gen­erosa, a da lib­er­tação dos oprim­idos pe­lo ju­go cap­ital­ista. En­tre os dois ex­tremos situ­ou-​se o Times, sem­pre pru­dente e mod­er­ado; para o seu ed­ito­ri­al­ista, o triste feito do chinês as­sas­si­no in­spi­ra­va-​se, sem dúvi­da, nas de­ploráveis doutri­nas de vi­olên­cia, nos pro­ces­sos metodica­mente frios e cruéis com que para além da Corti­na de Fer­ro se in­stau­rara uma or­dem de coisas que re­pug­na­va à sen­si­bil­idade, à tradição cristã dos oci­den­tais; mas não se po­dia con­denar, em blo­co, to­do um movi­men­to políti­co pe­lo pro­ced­imen­to dum adep­to fanáti­co; o ed­ito­ri­al­ista aceita­va co­mo sin­ceros os mo­tivos da­dos para o seu feito hedion­do pe­lo mari­do da desven­tu­ra­da A-​lin; mas con­sid­er­ava-​o um ex­al­ta­do que trans­for­ma­va uma dout­ri­na já de si im­placáv­el nu­ma li­cença am­pla para o crime.

  Ja­mais o pro­fes­sor Hu, ven­er­ado na sua pá­tria, re­speita­do, en­tre os in­gle­ses, nos cír­cu­los uni­ver­sitários e no meio re­stri­to da in­ves­ti­gação históri­ca e literária, su­pusera vir a al­cançar, por via do fil­ho, tão difer­ente e triste nomea­da. Na bal­ança da cele­bri­dade pe­sou mais a sua lig­ação com um homi­ci­da con­fes­so do que os vinte vol­umes que pub­licara so­bre a filosofia tauís­ta, so­bre o con­fu­cionis­mo co­mo sis­tema de Es­ta­do e sis­tema de moral, so­bre a lit­er­atu­ra chi­ne­sa des­de a época da di­nas­tia Chu, quin­hen­tos anos an­te­ri­or a Cristo, até ao tem­po da di­nas­tia Ming, con­tem­porânea da nos­sa Re­nascença. As suas obras jazi­am, em valiosas edições de Ox­ford, nas bib­liote­cas de ar­qui­tec­tura góti­ca das uni­ver­si­dades britâni­cas; o seu nome an­da­va pelas primeiras pági­nas dos jor­nais, co­mo o pai do as­sas­si­no.

  Nun­ca, co­mo ness­es dias tristes, o vel­ho sábio recor­dou com tan­ta saudade os am­bi­entes de es­tu­do do seu país. Para que tro­cara a Chi­na, de val­ores eter­nos, pelas par­agens aparente­mente civ­ilizadas onde tu­do se sac­ri­fi­ca­va ã alu­ci­nação do es­cân­da­lo e do sen­sa­cional? Mas co­mo re­gres­sar ã pá­tria se as forças de que o fil­ho se procla­ma­va o agente, no crime, a re­tal­havam e a trazi­am de no­vo em sangue? 

  O pro­fes­sor K. Y. Hu recol­heu ã qui­etação de Strat­ford, onde as úni­cas emoções per­mi­ti­das er­am, a ho­ras fixas do começo da noite, as das per­son­agens Shake­speare, que quo­tid­iana­mente se el­evavam no pal­co do teatro, a recor­dar out­ras paixões, out­ras co­biças e out­ros ím­petos da condição hu­mana mais vig­orosos e mais trági­cos ain­da do que os que havi­am movi­do Kêng Wei. 

  Quan­do a con­de­nação so­breveio, o pro­fes­sor Hu es­ta­va de no­vo em Strat­ford. E dessa vez eu era, co­mo re­latei, seu com­pan­heiro na pou­sa­da. Não es­tá­va­mos, to­davia, sós. Des­de o Dr. Fawzi, ne­gro co­mo o aze­viche, pre­ocu­pa­do com a mod­ern­iza­ção dos pro­gra­mas de História, em Kharthoum, ao po­eta grego e ao casal norte-​amer­icano, havia gente de cores e men­tal­idades bem dís­pares no grupo que o acom­pan­ha­va em ho­ra cer­ta­mente a mais do­lorosa da sua lon­ga ex­istên­cia. 

  Mrs. Whar­ton, que viera de Kansas City à sir­ga do mari­do e prepar­ava a tese so­bre o teatro de Shake­speare, es­ta­va con­ta­gia­da pe­lo vírus da psi­canálise e da psi­co­pa­tolo­gia, tão di­vul­ga­dos nas ca­madas cul­tas ou pseu­docul­tas do seu país. Jul­ga­va fri­amente to­das as obras