 de arte que o po­eta e dra­matur­go ge­nial com­pusera, à luz da no­va ciên­cia, que tin­ha em Freud o pro­fe­ta e o or­ago, e nela uma adep­ta fer­vorosa. A poe­sia, a in­ten­si­dade do dra­ma, a beleza das ce­nas teatrais de­sa­pare­ci­am per­ante a pre­ocu­pação pesquisado­ra de taras de de­generescên­cias, de mo­tivos re­mo­tos e se­cre­tos a im­pelir as per­son­agens. O demi­ur­go de Strat­ford cri­ara uma hu­manidade vig­orosa, co­mo a dos painéis de Miguel Ân­ge­lo; de­pois to­cara-​a com a vara mág­ica de que bro­tam a vir­tude e o crime, a beleza e a hedion­dez; lib­er­tara os ven­tos, des­en­cadeara as tem­pes­tades. Havia cer­ca de qua­tro sécu­los que ess­es ven­tos brami­am, chicote­an­do as imag­inações. E ago­ra vin­ha aque­la mul­her fe­liz e medíocre, sem taras, sem de­generescên­cias e tam­bém sem en­can­tos, sem ví­cios, além do taba­co amare­lo e da Co­ca-​co­la, e tam­bém sem quais­quer vir­tudes ex­cel­sas, de tez clara co­mo as mul­heres da sua raça, de ócu­los de moldu­ra metáli­ca quase im­per­cep­tív­el, co­mo as mul­heres do seu país, e sem imag­inação, sem gen­erosi­dade, apli­ca­va a lu­pa adquiri­da em cadeiras uni­ver­sitárias à es­calpeliza­ção daque­les seres hu­manos, dos mon­stros e dos títeres, dos mata­dores e dos san­tos. To­da ela ressum­bra­va psi­canálise; era um ser de­testáv­el, pela se­gu­rança no saber, pela ba­nal­idade in­trínse­ca e por aque­la pre­ocu­pação de só ex­trair das obras de arte as fichas, os ver­betes para uma tese de pa­tolo­gia psíquica.

  Era in­evitáv­el que Mrs. Whar­ton procurasse aplicar a bagagem cien­tí­fi­ca à in­ter­pre­tação do ca­so, sin­gu­lar­mente tene­broso, que ia levar' à for­ca o fil­ho do pro­fes­sor Hu. Não acred­ita­va ela na ver­são, que Kêng Wei sus­ten­tara até fi­nal do jul­ga­men­to, de que matara com o fi­to ex­clu­si­vo de «de­scon­ge­lar» a for­tu­na em mãos bur­gue­sas «con­ge­la­da» e nas suas, se a prisão não tem so­brevin­do, lo­go con­sagra­da à causa que tu­do exi­gia dele. Menos ain­da aceita­va a ver­são que a Justiça tornara ofi­cial com o seu vere­dic­to: a de que o ad­vo­ga­do chinês as­sas­si­nara a mul­her com o sim­ples e odi­en­to ob­jec­ti­vo de gozar neste mun­do, sem peias de es­pé­cie al­gu­ma, as riquezas que a ví­ti­ma -ad­min­istrado­ra se­gu­ra -mantin­ha firme­mente nas mãos. Para a amer­icana im­buí­da dos novos con­ceitos, quase dog­máti­cos, de psi­colo­gia com­para­da, vin­da de Kansas City com o fi­to de es­tu­dar, no teatro do trági­co quin­hen­tista, os in­escrutáveis seg­re­dos da al­ma hu­mana, Kêng Wei matara a ju­di­ciosa A-​lin porque ávi­das her­anças, e in­fluên­cias du­ma in­fân­cia que teste­munhara as guer­ras e as depredações na Chi­na de­saven­tu­ra­da, lhe havi­am da­do uma per­son­al­idade, pos­suí­da de com­plex­os tremen­dos, difer­ente da que tam­bém ex­is­tia nele e que era o orgul­ho do pai eru­di­to e filó­so­fo. Mrs. Whar­ton jun­ta­va os seus con­hec­imen­tos de ciên­cias psíquicas à ideia que nos livros de Pearl Buck col­hera da com­pli­ca­da al­ma chi­ne­sa; as­so­ci­ava-​lh­es al­guns pre­con­ceitos yan­kees e da mis­tu­ra saía um re­tra­to de Kêng Wei que, a ser ex­ac­to, lhe al­cançaria, em vez da for­ca, uma con­de­nação de in­sâ­nia perigosa para o resto dos seus dias.

  As opiniões de Mrs. Whar­ton não pe­saram, to­davia, na bal­ança da Justiça. O po­eta grego, que não se cur­vara à fa­tal­idade da der­ro­ta do seu país, aceita­va o fa­tal­is­mo de cer­tos des­ti­nos; não bus­ca­va ex­pli­cações cien­tí­fi­cas para os crimes dos hu­manos, mas, co­mo na tragé­dia heléni­ca, da­va à fa­tal­idade pri­mazia de poder so­bre a vi­da