 e so­bre a morte. Ví­ti­ma dos seus com­plex­os freudi­anos ou da fa­tal­idade de trági­co des­ti­no -o que para o ca­so lhe de­via ser in­difer­ente -Kêng Wei subiu os de­graus da for­ca nu­ma madru­ga­da som­bria e agreste, de chu­va, en­rege­lado­ra de cor­pos e de al­mas. 

  O Min­istério do In­te­ri­or man­dou para os jor­nais a co­mu­ni­cação ha­bit­ual: «O Dr. Kêng Wei Hu, con­de­na­do pe­lo as­sas­sínio de sua es­posa, foi en­for­ca­do es­ta man­hã, no pá­tio da Prisão de Pen­tonville, às 7 ho­ras e 45 min­utos..... Es­cutá­mos a notí­cia na rá­dio pela emis­são da B. B. C., antes de al­moço. O pro­fes­sor Hu não es­ta­va pre­sente. E não deixá­mos de al­moçar; Mrs. Whar­ton es­ta­va até com um apetite vo­raz. 

  O pro­fes­sor só apare­ceu ao fim da tarde; es­tivera recol­hi­do no quar­to o dia in­teiro. À noite rep­re­sen­ta­va-​se «Ote­lo» no teatro; mas nen­hum de nós foi as­si­stir ao crime que viti­maria a in­ocente Des­dé­mona. 

  O pai de Kêng Wei tomara to­das as providên­cias para que o cadáver do fil­ho lhe fos­se resti­tuí­do, de for­ma a poder, quan­do a ocasião sur­gisse, trans­portá-​lo para os pe­nates dis­tantes, onde -e só aí -al­ma e cor­po en­con­trari­am fi­nal­mente a paz. 

  A frase es­cu­ta­da por Mr. Brown, per­ito em porce­lanas chi­ne­sas, frase que aju­dara a Polí­cia a des­fi­ar a mea­da do crime, não fo­ra lança­da ao réu, mas por este à sua ví­ti­ma: Hás-​de mor­rer sem ter caixão! -Si m'hou cong-​choi! Kêng Wei re­pousa­va num caixão de teca e da cer­ração do mar sur­giria um dia o navio dos mor­tos que o levaria para a Chi­na.

  Que se­ria feito do cor­po de A-​lin, cu­ja primeira sepul­tura fo­ra o Tamisa, de pontes ne­gras, de águas cor de lama, de navios acosta­dos a fábri­cas hedion­das, de cais tene­brosos, des­de ce­do desabita­dos, co­mo man­chas de des­olação na cidade enorme –, de des­olação e de crime? De qual daque­les cais teria o cor­po de A-​lin es­cor­re­ga­do sem ruí­do, ou só com um baque sur­do, para o rio? 

  Per­maneci em Strat­ford ain­da qua­tro ou cin­co dias após a ex­ecução de Kêng Wei. Na fol­ha larga do Deve e Haver dos meus ac­tos neste mun­do, cu­jo ex­trac­to ap­re­sentarei no lim­iar da Eternidade, lá onde A-​lin e o mari­do já prestaram con­tas, deve in­scr­ev­er-​se co­mo acção de ben­emerên­cia a for­ma co­mo am­parei o pro­fes­sor Hu nes­sas ho­ras em que teve, pouco a pouco, de se lib­er­tar dos fan­tas­mas do fil­ho e da no­ra, A tragé­dia find­ara, Os ir­mãos de A-​lin já havi­am apare­ci­do a reivin­dicar os bens de que er­am úni­cos herdeiros. O tes­ta­men­to dela a fa­vor do mari­do era sim­ples peça de pro­ces­so ju­di­cial ar­quiv­ado. O mun­do do pen­sa­men­to e o mun­do da acção exi­giam do vel­ho mestre o re­gres­so a par­agens dis­tantes da zona de pe­sade­lo em que vivera nos úl­ti­mos meses. Da Chi­na vin­ham até ele dois ape­los opos­tos: o regime que du­rante anos de ad­ver­si­dade re­si­sti­ra hero­ica­mente ao dom­inador nipóni­co, afun­da­va-​se, na em­briaguez da vitória, em sor­didez e cor­rupção; apela­va para o prestí­gio moral do pro­fes­sor para que o co­brisse com as tin­tas da sua in­te­gri­dade; mas o his­to­ri­ador da lit­er­atu­ra chi­ne­sa não re­con­hecia já nos gen­erais e políti­cos que trans­fe­ri­am for­tu­nas maciças para os Es­ta­dos Unidos os com­pan­heiros dos anos as­som­brosos de lu­ta con­tra o in­imi­go es­trangeiro. Do out­ro la­do, onde se or­ga­ni­zavam os exérci­tos que, fortes da aliança moscovi­ta, em breve se as­sen­hore­ari­am de to­do o Im­pério Ce­leste, tam­bém os chama­men­tos er­am in­sis­tentes e per­sua­sivos. Kêng Wei fo­ra ap­re­sen­ta­do às mas­sas 