mente, igual ter­nu­ra pela memória de am­bos. O fil­ho fo­ra do seu sangue e do seu afec­to. Ela, que tão gos­tosa­mente adop­tara para fil­ha, en­con­trara-​se, porém, no breve con­tac­to, mais per­to ain­da dele, no amor suave às coisas de arte que não al­imen­tam os fam­intos mas nu­trem o es­píri­to.

  De­mos dois ou três lon­gos pas­seios a pé, naque­las úl­ti­mas tardes, pe­los cam­in­hos planos, pe­los cam­pos verdes: a As­ton Cant­low, onde Mary Ar­den, a mãe do dra­matur­go, se ca­sou com John Shake­speare; a Snit­ter­field, a pe­que­na aldeia donde se trans­feriu para a cidade a família mod­es­ta do au­tor do «Júlio César».

  Foi nu­ma dessas ex­cursões que o vel­ho pro­fes­sor me recor­dou, em de­fe­sa do fil­ho e nu­ma in­ter­pre­tação que me pare­ceu talvez força­da, os ver­sos do po­eta, quan­do, no en­ter­ro de César, Mar­co An­tónio cho­ra o as­sas­si­na­to e lou­va o as­sas­si­no: 

  «My heart is in the cof­fin there with Cae­sar

  …Bru­tus is an hon­ourable man». 

  A mui­ta in­teligên­cia que in­for­ma­va o seu es­píri­to e a ter­nu­ra de pai de­ram-​lhe com­preen­são para o ac­to de Kêng Wei; mas não o levaram, ape­sar dis­so, a vencer a dis­tân­cia que os cor­re­li­gionários do fil­ho que­ri­am que ele trans­pusesse. Já ago­ra, mor­re­ria na vel­ha Inglater­ra e ter­mi­nar­ia, se pudesse, o catál­ogo de arte que A-​lin deixara por con­cluir. 

  Só mais dum ano decor­ri­do voltei à Grã-​Bre­tan­ha. No in­ter­va­lo tro­cara com o pro­fes­sor Hu duas ou três car­tas, breves mas ex­pres­si­vas da es­ti­ma que ficara a lig­ar-​nos. Na úl­ti­ma que me en­viara con­fir­ma­va ele, com desân­imo, a im­pos­si­bil­idade em que es­ta­va de re­gres­sar à pá­tria. A uni­ver­si­dade, de cu­jas an­danças par­til­hara du­rante a guer­ra mundi­al, tornara ao no­madis­mo que a cele­brizara, mas des­ta vez fugi­da, não aos nipóni­cos, mas aos com­pa­tri­otas ver­mel­hos, per­ante cu­jo ím­peto caíam, co­mo caste­los de car­tas, os exérci­tos da vel­ha Chi­na. E ele, se não aceita­va o no­vo ju­go, ao qual teria de moldar to­da a sua cul­tura e matéria de en­si­no, em no­va e para si odiosa dis­ci­plina men­tal, tam­bém não que­ria ser ar­ras­ta­do, sem cul­pas, na enx­ur­ra­da dos que es­tavam a ser em­purra­dos para o mar ou colo­ca­dos per­ante os pelotões de fuzil­amen­to. Pen­sa­va até, dizia-​me num post-​scrip­tum, em pedir a nat­ural­iza­ção in­gle­sa.

  No próprio dia em que me en­con­trei de no­vo em Lon­dres -de­sem­bar­ca­do do «ex­pres­so» de Dover, ao fim da tarde, em Vic­to­ria Sta­tion -tele­fonei a três ou qua­tro ami­gos e nesse número re­stri­to in­cluí o pro­fes­sor Hu. O praz­er que man­ifestou em me saber de no­vo tão per­to dele não po­dia ser sim­ula­do e por is­so me pen­horou. Mas só na se­mana seguinte os afaz­eres que so­bre mim tombaram em alu­vião -onde já iam os dias qui­etos de Strat­ford! quan­do voltaria eu a ter qui­etos dias? -só na se­mana seguinte o pude procu­rar na casa em que habita­va, per­to de Mar­ble Arch, co­mo hós­pede dum com­pa­tri­ota, o Dr. Chang, den­tista de nomea­da e filó­so­fo nas ho­ras va­gas.

  Subia ao seu quar­to, onde es­ta­va reti­do por uma crise de bron­quite que os primeiros frios do Ou­tono tin­ham des­per­ta­do. En­con­trei-​me en­tre vel­hos ami­gos: ele, as suas colecções de poe­sia chi­ne­sa -leu-​me al­gu­mas das traduções que ul­ti­ma­mente fiz­era –, as provas do catál­ogo que A-​lin não ter­mi­nara e cu­jo tra­bal­ho prosseguia com a co­lab­oração de Mr. Brown, o re­tra­to do fil­ho e da no­ra so­bre a mesa de cabe­ceira... Havia decor­ri­do um ano des­de que nos tín­hamos sep­ara­do? Não es­ta­va tu­do na mes