­ma, co­mo eu o deixara? Ele, a sil­abar os ver­sos dos po­et­as de há mil, de há dois mil anos? A-​lin a sor­rir, no re­tra­to, para o noi­vo? Kêng Wei, de malares salientes, a cer­rar os ol­hos -já de si semicer­ra­dos -que a clar­idade pare­cia ferir? E as provas do catál­ogo não es­tavam ali aber­tas, tal co­mo Mr. Brown as teria deix­ado em Saint James Court na tarde em que ou­vi­ra o ad­vo­ga­do diz­er para a mul­her: -Hás-​de mor­rer sem ter caixão! -?

  Decor­rera um ano? Mas que im­por­ta­va um ano, se a poe­sia que ele me lia, em­beve­ci­do, data­va de há dois mil e ain­da não perdera a beleza e a fres­cu­ra? 

  Al­guns dias decor­ri­dos foi a vez do pro­fes­sor Hu me tele­fonar. De­pois de re­spon­der à min­ha per­gun­ta afec­tu­osa so­bre a sua saúde, que en­con­trara, na re­al­idade, abal­ada, disse-​me o que pre­tendia de mim: Teria eu a tarde livre? Que­ria-​me para com­pan­heiro de piedosa jor­na­da. Co­mu­ni­cou-​me de que se trata­va. E lo­go sac­ri­fiquei to­dos os afaz­eres àquele de­ver de re­tribuição du­ma amizade que de for­ma tão sin­gu­lar me dis­tin­guia.

  Nes­sa tarde o cor­po de Kêng Wei, que havia um ano re­pousa­va, no caixão de teca, em prateleira do de­pósi­to fu­nerário de Pen­tonville, ia ser trans­porta­do para bor­do do navio que o con­duziria à Chi­na, No por­to de Hong Kong, em cu­jo foro o ad­vo­ga­do ex­ercera, por breve perío­do a profis­são, se­ria baldea­do para um dos muitos navios que sobem o rio das Péro­las e lã nos con­fins do Yu­nan re­mo­to re­pousaria fi­nal­mente, jun­to dos seus pe­nates, para tran­quil­idade da al­ma so­bre­vi­va e para paz da con­sciên­cia do vel­ho pai, que não que­ria mor­rer sem se de­sem­pen­har dessa mis­são.

  De tu­do o pro­fes­sor tratara para que na­da prej­udi­cas­se o re­torno à pá­tria dos de­spo­jos do fil­ho. O navio que de­via con­duzir estes até Hong Kong era um vel­ho car­gueiro da «Penin­su­lar & Ori­en­tal Line» que viera da Chi­na at­ul­ha­do de ar­roz e que para lá volta­va com uma par­ti­da de ma­te­ri­al de guer­ra para os exérci­tos na­cional­is­tas. Com esse ma­te­ri­al e muito out­ro de­ve­ri­am os ce­les­ti­ais re­si­stir à ofen­si­va dos com­pa­tri­otas con­luia­dos com Mosco­vo; prefe­ri­am, to­davia, vendê-​lo aos ad­ver­sários e colo­car o din­heiro a bom re­ca­to nos ban­cos amer­icanos. As­sim, quase sem lu­ta, a on­da ver­mel­ha ia alas­tran­do, en­quan­to os ben­efi­ciários da de­saver­gonha­da can­don­ga abal­avam, sem ar­mas mas com lau­tas baga­gens, para exílios onde não chegasse o es­tampi­do das ar­mas ne­go­ci­adas e o odor re­pul­si­vo dos cadáveres dos que ain­da mor­ri­am pela causa traí­da e fi­cavam a apo­drecer nos ar­rozais. Mes­mo as­sim, as fábri­cas de ar­ma­men­tos do Oci­dente con­tin­uavam a reme­ter para os cam­pos de batal­has que não se travavam as par­tidas far­tas de ma­te­ri­al béli­co que aman­hã de­ve­ria apres­sar a própria ag­onia do mes­mo Oci­dente. Mas na mar­cha in­ex­oráv­el das coisas há fenó­menos que só se jus­ti­fi­cam pe­lo ab­sur­do. E só o ab­sur­do os man­tém. Por is­so o cadáver de Kêng Wei lá ia de mis­tu­ra com o ma­te­ri­al de guer­ra que os seus cor­re­li­gionários com­prari­am por preço mais có­mo­do do que o pa­go por ele para se as­sen­hore­ar da for­tu­na de A-​lin. Não voltavam os restos do ad­vo­ga­do à Chi­na no navio que du­rante três ou qua­tro dé­cadas cor­rera, por con­ta do vel­ho Siu-​Chan, to­dos os por­tos do Pací­fi­co e do Índi­co, na bus­ca dos mor­tos para repa­tri­ar. Voltavam em navio difer­ente, onde não have­ria out­ros mor­tos, mas tu­do com que se fab­ri­cam os mor­tos, des­de os bom­bardeiros pe­sa­dos às granadas de naf­ta. Re