nos con­seguiríamos al­hear da sua pre­sença si­len­ciosa e de tu­do que em ar­repio ela trazia aos nos­sos es­píri­tos. Por de­trás do seu vul­to e ros­to in­de­cifráv­el er­guia-​se out­ro vul­to e a figu­ra ge­ométri­ca, de lin­has duras, du­ma for­ca. O Evening Stan­dard pub­licara a notí­cia de que o Con­sel­ho Pri­va­do re­cusara o úl­ti­mo ape­lo e de que o «chinês as­sas­si­no» -co­mo os jor­nais o al­cun­havam se­ria en­for­ca­do na man­hã seguinte. O Dr. Hu es­tivera to­da a tarde ausente. Cer­ta­mente fo­ra de­spedir-​se do fil­ho. 

  Quan­do cheguei a Strat­ford, Miss Mann ad­ver­tiu-​me da iden­ti­dade do sábio chinês que tin­ha por com­pan­heiro na pou­sa­da, não fos­se eu, de­spre­venido, referir-​me ao as­sun­to que apaixonara a opinião in­gle­sa -tão afeiçoa­da aos crimes satâni­cos -em ter­mos que mo­lestassem o bom do homem. Man­tive, por is­so, cautelosa lin­ha de dis­crição; procu­ra­va até afas­tar-​lhe da vista os jor­nais que noti­ci­avam os úl­ti­mos dias de vi­da do fil­ho, os pas­sos dos ad­vo­ga­dos e os seus próprios pas­sos. Mas, com sur­pre­sa min­ha, foi ele quem se aprox­imou de mim. Os in­gle­ses, que fazi­am da tragé­dia do fil­ho mo­ti­vo de ven­da dos jor­nais, co­mo o der­by ou os de­safios de râgue­bi en­tre as equipas céle­bres, o pro­fes­sor su­danês ou o casal amer­icano, nen­huns pon­tos de con­tac­to tin­ham com a sua al­ma ori­en­tal. Eu era por­tuguês e, por es­tran­ho que pareça, o chinês cul­to vê num por­tuguês com­preen­si­vo um ente do seu mun­do e não o es­trangeiro dis­tante; eu era ro­mancista e, por­tan­to, um homem aten­to a to­das as ar­rit­mias do coração hu­mano; e ele lo­go o perce­beu às primeiras palavras que trocá­mos; em anos afas­ta­dos eu vivera em Macau e de Macau par­ti­ra a sua no­ra para a vi­agem de núp­cias tragi­ca­mente fin­da. Não lhe disse que até a con­hecera para quê lac­er­ar inu­til­mente a feri­da que san­gra­va?

  To­dos ess­es mo­tivos pe­saram, porém, na prefer­ên­cia com que lo­go no dia seguinte ao da min­ha chega­da me começou a dis­tin­guir. E foi ele próprio quem me falou da tragé­dia em que o fil­ho se en­volvera. 

  Ap­re­sen­ta­do pe­los ad­vo­ga­dos de de­fe­sa o úl­ti­mo re­cur­so da sen­tença, mais nen­huns pas­sos po­dia ele dar em bene­fí­cio do réu que a Justiça in­gle­sa em­purra­va in­ex­orav­el­mente para a for­ca. Havia ido para aque­le re­can­to de Strat­ford, onde em ho­ras mais fe­lizes re­pousara dos tra­bal­hos, aguardar a de­cisão fi­nal. Ago­ra o Evening Stan­dard noti­ci­ava que o pe­di­do de clemên­cia não fo­ra aten­di­do. K. W. Hu (só uma ini­cial mar­ca­va a di­ver­si­dade dos des­ti­nos, pois o pai in­screvera-​se no livro da pou­sa­da co­mo K. Y. Hu) -K. W. Hu se­ria en­for­ca­do na prisão de Pen­tonville na man­hã seguinte. 

  O Dr. Hu (K. Y., na­da de con­fusões com o con­de­na­do) era um sábio em­inente da Chi­na mod­er­na. En­si­na­va História, Lit­er­atu­ra e Filosofia tauís­ta na Uni­ver­dade de Hang­chow. A ver­dade era que o pouso ex­ac­to da uni­ver­si­dade não es­ta­va bem es­clare­ci­do qual fos­se, pois que des­de 37, em que os Japone­ses ir­romper­am pela Manchúria, até 45, ano em que a bom­ba atómi­ca lh­es liq­uidou, pe­lo menos por uns tem­pos, os propósi­tos ex­pan­sion­istas, a uni­ver­si­dade, com to­do o cor­po do­cente, ma­te­ri­al e in­stru­men­tos trans­portáveis e cer­ca de dois mil­hares de alunos, an­dou em bolan­das do Kwei-​Chow para o Kuang-​Si, do Kuang-​Si para o Kiang-​Si e des­ta provín­cia fi­nal­mente para o Chekiang, onde os Nipóni­cos não con­seguiram chegar nem atin­gi-​la. Trans­for­mou-​se dessa for­ma a uni­ver­si­dade em sím­bo­lo er­rante