­gres­savam em boa com­pan­hia. 

  Pas­sei por casa do pro­fes­sor Hu por vol­ta das três da tarde, pois que o em­bar­que do caixão es­ta­va mar­ca­do para as qua­tro e meia. Um aut­ofúne­bre, con­duzi­do e guarda­do por agentes da Polí­cia, trans­portaria os de­spo­jos do en­for­ca­do até ao por­taló do navio. Mes­mo de­pois de mor­to Kêng Wei era ain­da pri­sioneiro das forças de que jul­gara poder troçar.

  O Dr. Chang, den­tista e filó­so­fo nas ho­ras va­gas, quis acom­pan­har o seu cat­ego­riza­do hós­pede em jor­na­da de tan­ta solenidade. Fo­mos, por­tan­to, os três no un­der­ground até Shad­well Sta­tion. O navio par­tia de Shad­well Basin, ali a quin­hen­tos met­ros, um pouco a ju­sante do lo­cai onde apare­cera, pre­so a um fer­ro do rio, o cor­po de A-​lin.

  Es­ta­va uma tarde tipi­ca­mente lon­dri­na, cinzen­ta co­mo cer­tas telas de Whistler. Não chovia, mas nem chega­va a ser pre­ciso chover para sen­tir­mos a pre­sença da chu­va. O pro­fes­sor, cu­ja ex­trema sen­si­bil­idade eu pud­era aquilatar nos dias in­esquecíveis de Strat­ford, en­cam­in­ha­va-​se para a cer­imó­nia com serenidade triste. Era um le­tra­do do tem­po do im­per­ador Wu Ti, que no ano 502 fun­dou a di­nas­tia Liang e com­pôs ver­sos suaves procla­man­do a el­evação do man­da­men­to: «Não matarás» –; era um le­tra­do dess­es tem­pos pretéri­tos, per­di­do, a meu la­do, nas do­cas de Lon­dres. Ninguém es­cu­tara os con­sel­hos bran­dos do im­per­ador e ele viera a mor­rer de aflição e mis­éria no mosteiro a que se recol­hera. Em que dester­ro, em que mosteiro deste sécu­lo de impiedade viria a cer­rar os ol­hos o pro­fes­sor Hu? 

  O fil­ho fo­ra o primeiro a ig­no­rar os con­sel­hos do po­eta; matara, fo­ra mor­to -e que restaria dele den­tro daque­le caixote ba­nal, de tábuas planas, que os car­regadores do por­to tiravam do aut­ofúne­bre e deix­avam tombar, sem re­speito, na lama do cais?

  -A ar­mação de tábuas pro­tege o caixão de teca; fui eu que a man­dei faz­er -elu­ci­da-​me o pro­fes­sor, in­do ao en­con­tro da min­ha es­tran­heza. -In­fe­liz­mente, tem de ir no porão, co­mo car­ga. Não há re­speito pe­los mor­tos. 

  O apara­to poli­cial des­per­tara a atenção dos es­ti­vadores; não foi pre­ciso muito para que eles soubessem que o caixote, semel­hante a tan­tos out­ros que os guin­dastes do navio tin­ham er­gui­do do cais e sepul­ta­do nos porões hi­antes, trans­porta­va os restos do «chinês as­sas­si­no», cu­ja história, no ano an­te­ri­or, lh­es valera por um bom livro de lit­er­atu­ra de­tec­tivesca. So­mente os out­ros caixotes, com as mar­cas das fábri­cas de ar­ma­men­tos, con­tin­ham os in­stru­men­tos de morte, E aque­le já encer­ra­va a própria es­sên­cia da morte, o seu fru­to mais caro, mais pre­cioso, du­pla­mente to­ca­do, no crime e no cas­ti­go, pela sua mão gél­ida e ar­dente.

  En­quan­to es­perá­va­mos pe­lo em­bar­que do caixote, meti con­ver­sa com um dos ofi­ci­ais do navio, ali posta­do per­to de mim a fis­calizar as manobras da car­ga e o tra­bal­ho dos es­ti­vadores. Jun­tou-​se-​nos um em­pre­ga­do da em­pre­sa ar­mado­ra, En­tre­tan­to o pro­fes­sor passea­va com o Dr. Chang no cais que as poças de água e os montes de de­tri­tos tor­navam quase in­tran­sitáv­el.

  E pe­lo em­pre­ga­do da «P. & O.» eu soube uma coisa sur­preen­dente: não era só o cadáver de Kêng Wei que o navio trans­portaria para a Chi­na; levaria tam­bém o de A-​lin. Os ir­mãos da as­sas­si­na­da havi­am prov­iden­ci­ado para o re­gres­so dos seus restos aos pe­nates sagra­dos com de­voção igual à que o pro­fes­sor Hu pusera no re­torno do fil­ho mor­to. E a úni­ca agên­cia que se in­cumbia de tais fretes marí­ti­mos des