­ti­nara os dois car­rega­men­tos ao mes­mo navio. Talvez lu­crasse até um bónus com a du­pli­cação da car­ga…

  O caixão de A-​lin, pro­te­gi­do por idên­ti­ca ar­mação de tábuas lisas, em­bar­cara de man­hã; mas no porão n, °5 ficara, jun­to dele, o lu­gar va­go para o seu par, que só chegaria à tarde. E o pro­fes­sor quan­do daí a min­utos fos­se ver­ificar a ar­ru­mação da­da ao vol­ume com os restos do fil­ho -ca­so lev­asse o es­crúpu­lo até esse pon­to de minú­cia fis­cal­izado­ra -en­con­traria dois vol­umes iguais, dois caixotes iguais, dois des­ti­nos iguais.

  O em­pre­ga­do da «P. & O.» fala­va com o ofi­cial de bor­do ac­er­ca da car­ga que ain­da fal­ta­va em­bar­car e da ho­ra prováv­el a que con­seguiri­am sa­far o navio. O vel­ho car­gueiro seguiria ain­da de Lon­dres para An­tuér­pia e só do por­to do Es­cal­da tomaria de­pois ru­mo para o Ori­ente, via Suez. 

  En­quan­to os dois tomavam bal­anço à mer­cado­ria ain­da ex­pos­ta no cais, o meu pen­sa­men­to con­cen­trou-​se em prob­le­ma que só para mim próprio teria in­ter­esse: o sig­nifi­ca­do da min­ha as­sistên­cia ao em­bar­que do féretro do as­sas­si­no. E achei cer­to sa­bor de para­doxo ao fac­to da min­ha pre­sença no cais à tarde, e não de man­hã, quan­do o caixão com os restos de A-​lin fo­ra em­bar­ca­do. Havia si­do ela que eu con­hecera em anos dis­tantes, na mes­ma cidade onde am­bos tín­hamos vivi­do dias fe­lizes da mo­ci­dade; fo­ra ami­go do pai; fo­ra ele quem me in­cu­ti­ra o amor às coisas de arte do Ori­ente, que tan­to havia de vin­car a per­son­al­idade da fil­ha e que have­ria de ser ag­ita­do co­mo labéu a de­scul­par o crime, pre­ten­sa ou veridica­mente in­spi­ra­do em sen­ti­men­tos ex­al­ta­dos de gen­erosi­dade so­cial que ela não par­til­ha­va. Ol­han­do para den­tro de mim próprio, acha­va-​me muito mais per­to de A-​lin do que do seu mata­dor, que não con­hecera, por quem não nu­tria a menor sim­pa­tia, de quem tu­do me afas­ta­va: a in­teligên­cia, a sen­si­bil­idade, os con­ceitos da vi­da. E era o cadáver dele que eu viera acom­pan­har com a com­punção re­queri­da em tais cer­imó­nias, co­mo se do seu lu­to par­til­has­se. In­con­se­quên­cias dos nos­sos pas­sos, mes­mo os mais pau­ta­dos!

  Quan­do me per­dia nes­sas lu­cubrações in­úteis chegou ao cais um in­di­ví­duo al­to e idoso, vesti­do de es­curo, de co­lar­in­ho de go­ma e chapéu de co­co. Tan­to po­dia ser um cor­re­tor da Bol­sa, co­mo o cri­ado grave dum duque britâni­co. Di­rigiu-​se ao em­pre­ga­do da «P. & O.» co­mo a con­hec­imen­to anti­go e ou­vi este tratá-​lo por Mr. Brown. Ao es­cutá-​lo por Mr. Brown. Ao es­cu­tar a con­ver­sa en­tre os dois lo­go iden­ti­fiquei o recém-​vin­do. Era aque­le con­ser­vador do British Mu­se­um cu­jo de­poi­men­to levara Kêng Wei à for­ca; era o homem que ou­vi­ra a frase fatídi­ca: -Hás-​de mor­rer sem ter caixão!

  Ago­ra es­tavam ali os dois fig­urantes do diál­ogo es­cu­ta­do, ca­da qual em seu caixão. Ele, Mr. Brown, ami­go da mor­ta, in­cumbi­ra-​se, por man­da­do dos ir­mãos dela, de tu­do que dizia re­speito à trans­fer­ên­cia dos de­spo­jos para a Chi­na. Ain­da co­mo ami­go dela procu­rara com­ple­tar-​lhe o livro in­acaba­do; e fo­ra no pai do as­sas­si­no, sumo ori­en­tal­ista, que en­con­trara o auxílio eru­di­to e a de­voção às coisas de arte para levar a cabo tal obra. 

  Quan­do o Dr. Hu e o den­tista, cu­jos pas­sos os havi­am afas­ta­do de nós, voltaram ao grupo de que era pon­to de refer­ên­cia mais el­eva­do o chapéu de co­co de Mr. Brown, teste­munhei a cor­dial­idade do cumpri­men­to en­tre o vel­ho pro­fes­sor e o homem que mais con­tribuira para a 