con­de­nação do fil­ho. O con­ser­vador do museu ex­pli­cou ao pai de Kêng Wei que já ali es­tivera de man­hã a vi­giar o em­bar­que do féretro de A-​lin. O sem­blante do pro­fes­sor re­flec­tiu cer­ta sur­pre­sa; mas foi in­stan­tânea a reacção. Lo­go o es­píri­to largo e sereno aceitou a co­in­cidên­cia daque­le en­con­tro pós­tu­mo co­mo lição do des­ti­no. O fil­ho e a no­ra havi­am jun­ta­do as vi­das e um seguira o out­ro na morte; porque não havi­am de faz­er jun­tos a lon­ga vi­agem até aos pe­nates onde en­con­trari­am a paz? Fala­va co­mo pai e sogro ex­tremoso; ou­vin­do-​o dis­cor­rer, es­quecíamo-​nos do crime re­pul­si­vo que sep­arara os dois entes que ele que­ria re­unidos na vi­da e na morte.

  Uma cor­da forte en­laçou o caixote que con­tin­ha o es­quife de teca em que por sua vez se guar­davam os restos de Kêng Wei. O mo­tor do guin­daste começou a ron­car; o vol­ume pe­sa­do er­gueu-​se do so­lo e fez uma cur­va no es­paço até sumir-​se na crat­era aber­ta no bo­jo do navio.

  O pro­fes­sor Hu foi a bor­do ver­ificar com os seus ol­hos a ar­ru­mação que davam aos de­spo­jos do fil­ho, Acom­pan­hou-​o o con­ser­vador do museu, que era ali uma es­pé­cie de procu­rador de de­fun­tos e ausentes, ze­lador das cin­zas de A-​lin e dos in­ter­ess­es dos ir­mãos.


  A faina da car­ga es­ta­va quase ter­mi­na­da; meia ho­ra de­pois o «Isle of Skye» afas­ta­va-​se do cais e, es­capan­do-​se pela saí­da es­tre­ita da do­ca, começa­va lenta­mente a de­scer o Tamisa, deixan­do-​nos para trás, a nós e àquele pon­to do rio onde o cor­po de A-​lin apare­cera, para perdição de Kêng Wei. 

  Quan­do o navio se con­fundiu com os vul­tos de out­ros bar­cos, per­di­do no enx­ame de mas­treações que co­bria aque­la zona do rio, começa­va a noite a de­scer e de­spon­tavam luzes, aqui, ali, nas mar­gens, nas em­bar­cações, na cidade e no por­to des­mar­ca­dos.

  Lem­brei-​me do vel­ho Siu-​Chan, que du­rante quarenta anos ex­plo­rara, co­mo negó­cio ren­doso, o navio dos mor­tos. O seu navio não de­man­da­va, na col­hei­ta per­iódi­ca, o por­to de Lon­dres; fi­ca­va por out­ros mares. Mas nem por is­so a fil­ha as­sas­si­na­da e o gen­ro as­sas­si­no deixaram de ter um navio dos mor­tos para os trans­portar.

  Ou seríamos nós, os que não tín­hamos em­bar­ca­do, os que ficá­va­mos ape­ga­dos às coisas in­úteis e be­las que dão praz­er ao es­píri­to, às porce­lanas pre­ciosas da colecção de A-​lin, às poe­sias dos sécu­los pretéri­tos que o pro­fes­sor co­men­ta­va e traduzia, ao teatro do ma­go de Strat­ford –, o con­ser­vador do museu, ir­repreen­sív­el sob o chapéu de co­co, o Dr. Hu, a quer­er en­volver no mes­mo am­plexo de ter­nu­ra os que são mor­tos e os que matam, eu próprio, a quer­er com­preendê-​los a to­dos e sem os com­preen­der seríamos nós que ficá­va­mos no Navio dos Mor­tos? 

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