­dade em matéria de arte chi­ne­sa e colec­cionador afama­do. Siu-​Chan era já no meu tem­po um homem idoso, pos­suidor daque­la sabedo­ria filosó­fi­ca e tol­er­ante cep­ti­cis­mo que fazem dum chinês ed­uca­do um ser de re­quinte e de agrad­abilís­si­mo con­vívio. Fo­ra du­rante lon­gos, in­con­táveis anos, o pro­pri­etário dum navio céle­bre em to­da a cos­ta da Chi­na: o navio dos mor­tos. Era este um vel­ho cal­ham­beque que, por es­quec­imen­to, con­tin­ua­va a flu­tu­ar des­de o sécu­lo XIX, em que tomara for­mas, ao tem­po au­dazes, de navio a va­por. Quan­do Siu-​Chan o adquir­iu já an­da­va no tráfego dos mor­tos; Siu-​Chan com­prou o navio e o negó­cio; man­teve-​se sen­hor dum e doutro por cer­ca de quarenta anos, ao fim dos quais achou que a in­vasão das ideias mod­er­nas, com o desre­speito que traz pe­los vel­hos cos­tumes e re­gras da re­ligião, começa­va a tornar a em­pre­sa menos ren­dosa. Na ver­dade, os Chi­ne­ses já não tin­ham, muitos de­les, o es­crúpu­lo anti­go de voltar aos seus pe­nates de­pois de mor­tos. O navio já não trazia car­rega­men­tos com­ple­tos. Siu-​Chan começou a es­paçar as vi­agens e a al­terná-​las com der­ro­tas para o gol­fo Pér­si­co, onde o bar­co recol­hia car­ga mais leve mas mais lu­cra­ti­va, a do ópio, que em con­tra­ban­do se es­coa­va de­pois para o mar sem lim­ites que é a ter­ra da Chi­na. Mas esse comér­cio era mais ar­risca­do e Siu-​Chan, en­rique­ci­do já com o vel­ho tráfego dos mor­tos, vendeu o navio e o negó­cio, jun­tos, co­mo os havia com­pra­do, e foi para o oá­sis tran­qui­lo de Macau viv­er os anos que lhe restavam e or­denar a pre­ciosa colecção de arte, en­can­to dos seus ol­hos e de­voção do seu es­píri­to.

  E vi-​o sem­pre mar­ca­do pela leg­en­da do tráfego dos mor­tos. Des­de Cu­ba, onde sub­sti­tuíram os ne­gros nas plan­tações de açú­car, às il­has do Pací­fi­co e do Índi­co, onde são pescadores e artí­fices, pela cos­ta oci­den­tal das Améri­cas até à Cal­ifór­nia, onde con­stituem coló­nia ri­ca e nu­merosa, por in­find­áveis par­agens se es­pra­iam os chi­ne­ses, obreiros e fugi­dos à penúria do país na­tal. A to­da a parte chegam, garo­tos ain­da, home­ns feitos, an­ciães, Mas de­pois têm de voltar; se não em vi­da, pe­lo menos na morte. Porque o in­di­ví­duo, por um con­ceito con­fu­cionista, só pode viv­er em paz es­pir­itu­al, aquém e além tú­mu­lo, des­de que, donde quer que mor­ra, se­ja trans­porta­do para os seus pe­nates. É nestes que to­das as pri­mav­eras, pela al­tura da ter­ceira lua do ano, se faz a cer­imó­nia cul­tual dos an­tepas­sa­dos. O ente hu­mano, por muito po­bre e hu­milde que se­ja neste mun­do, é ri­co de duas al­mas: uma que fi­ca ma­te­ri­al­iza­da na ter­ra, lig­ada ao cadáver, e out­ra, a al­ma etérea, opos­ta à al­ma ma­te­ri­al, que se de­sprende do cor­po para in­gres­sar no cos­mos. É à primeira que se pres­ta cul­to e é ela que man­tém, mer­cê desse cul­to, a con­tinuidade da família.

  Foram as mil­hen­tas al­mas, recol­hi­das com os mil­hen­tos cadáveres, ao lon­go de in­úmeros por­tos do Índi­co e do Pací­fi­co, que fiz­er­am a for­tu­na do vel­ho Siu-​Chan. To­dos os anos as so­ciedades lu­tu­osas, que ve­lam pela manutenção do cul­to dos mor­tos, lhe fre­tavam o navio; o val­or do frete de­pen­dia do número de caixões cu­jo trans­porte pre­vi­amente se as­se­gu­rara. Por al­turas de Março, o navio abal­ava de Hong Kong; cer­ca do fim do ano re­gres­sa­va com o seu valioso car­rega­men­to de ataúdes; es­cala­va tam­bém Macau, onde uma tarde som­bria de tro­voa­da o vi aprox­imar-​se do por­to lo­doso. Os es­quifes er­am remeti­dos das cidades do litoral para os seus vários des­ti­nos na va