stidão da Chi­na. E quan­do a ter­ceira lua volta­va a er­guer-​se no seu giro eter­no, os mor­tos es­tavam em paz e os vivos po­di­am cel­ebrar jun­to de­les as cer­imó­nias de Chen-​Meng, que a uns e out­ros garan­ti­am a bem-​aven­tu­rança. 

  Na Chi­na dev­as­ta­da, no meu tem­po e ho­je ain­da, pelas guer­ras civis e por pi­rataria in­frene, era voz cor­rente que o navio dos mor­tos trazia sem­pre, nos porões cav­er­nosos, além da car­ga in­vi­oláv­el, out­ra que à som­bra dessa se es­con­dia: a de ar­mas de guer­ra, aco­modadas den­tro dos caixões, co­mo os cadáveres, para uso de vivos mais in­ter­es­sa­dos no saque do que no cul­to beat­ífi­co de Chen-​Meng. 

  Siu-​Chan ne­gou sem­pre que o seu navio ja­mais se tivesse presta­do a semel­hante comér­cio; ele era o homem pací­fi­co por ex­celên­cia e no as­pec­to e nos propósi­tos ninguém o pode­ria su­por en­volvi­do no sin­istro tráfego que se al­imen­ta­va da guer­ra e do sangue. Os car­rega­men­tos de ópio er­am já de out­ro teor; o néc­tar da pa­poila dá aos mor­tais, ain­da em vi­da, a fe­li­ci­dade ce­leste; es­ta­va na or­dem das coisas que quem con­sagrara a labu­ta du­ma vi­da in­teira a red­imir de fun­dos, resti­tuin­do-​os aos seus pe­nates, se ded­icas­se, quan­do o negó­cio fraque­ja­va, a dar aos vivos uma pe­que­na amostra da ex­tasi­ada ven­tu­ra que os es­per­ava quan­do viessem, ar­ru­ma­dos nos es­quifes, pe­lo mar em fo­ra, no navio quase fan­tas­ma, 

  Mas, du­ma for­ma ou doutra, Siu-​Chan acu­mu­lou con­sid­eráv­el for­tu­na, de que, por sua morte, A-​lin, a fil­ha preferi­da, o fru­to dos amores tar­dios, se­ria a prin­ci­pal herdeira. Em A-​lin, na sua ed­ucação, no seu fu­turo, colo­cou ele as úl­ti­mas es­per­anças e am­bições du­ma vi­da que já atin­gi­ra to­das as metas e só na ven­tu­ra da fil­ha queri­da se pode­ria rev­er. Con­heci A-​lin an­daria ela pe­los quinze anos, quan­do a garo­ta gra­ciosa, en­le­vo da casa in­teira, mi­mo e re­ga­lo das di­ver­sas es­posas de Siu-​Chan, toma­va o vul­to da mul­her que viria a ser. Já se in­ter­es­sa­va pelas coisas de arte em cu­jo amor o pai desve­lada­mente a ini­cia­ra; tin­ha cer­ta cul­tura oci­den­tal e es­mer­ada ed­ucação síni­ca, co­mo fru­to apu­ra­do que era do en­con­tro de duas civ­iliza­ções na vel­ha pra­ia por­tugue­sa.

  Quan­do A-​lin atingiu os de­zoito anos o pai acom­pan­hou-​a aos Es­ta­dos Unidos para aí prosseguir, nu­ma uni­ver­si­dade, os es­tu­dos enc­eta­dos em Macau e Hong Kong. Voltou o vel­ho Siu-​Chan soz­in­ho para o Ori­ente e em ter-​se aparta­do da fil­ha fez o maior sac­ri­fí­cio da lon­ga vi­da. Vi-​o uma vez ain­da no seu re­gres­so, antes de, por min­ha vez, abalar daque­las par­agens. Em poucos meses en­vel­he­cera anos. Mas o son­ho de faz­er da fil­ha uma mul­her mod­er­na, in­struí­da e per­fei­ta, ex­poente de cul­tura, sím­bo­lo de en­can­tos e vir­tudes, era a ob­sessão do seu es­píri­to de artista que a vi­da dester­rara para o tráfego dos cadáveres, para o con­tra­ban­do de ar­mas, para a can­don­ga do ópio. 

  A Pra­ia Grande de Macau perdeu para ele a ma­gia de re­can­to do céu es­que­ci­do na ter­ra des­de que na casa es­paçosa deixou de ciran­dar o vul­to leve de A-​lin. Os anos que ain­da viveu foram os anos de es­pera, en­ve­ne­na­da pela sep­aração ab­so­lu­ta da fil­ha a que o con­de­nou o alas­trar da guer­ra ao Ex­tremo Ori­ente. Pôde sem­pre en­viar a A-​lin, por trans­fer­ên­cia tele­grá­fi­ca, o din­heiro necessário ao seu sus­ten­to e ed­ucação. En­tre os dois abria-​se, porém, co­mo vas­to fos­so, um oceano in­teiro, cam­po de batal­has onde nem já se­quer po­dia nave­gar tran­qui­lo o vel­ho navio