 dos mor­tos. Pouco a pouco foi en­languescen­do, na abas­tança e na paz daque­le oá­sis de qui­etude em que Macau se tornou nos anos cru­en­tos da guer­ra. Mas A-​lin, li­cen­ci­ada fi­nal­mente em Filosofia e Le­tras pela Uni­ver­si­dade de Yale, ain­da lhe pôde bei­jar os ol­hos quase cer­ra­dos na tarde em que ele mor­reu, fe­liz de a ver re­gres­sa­da e com o son­ho da sua vel­hice a tomar cor­po de re­al­idade.

  A ra­pari­ga par­til­hou com dois ir­mãos, fil­hos de out­ras mães, a for­tu­na que desme­di­da­mente se di­latara com a acção do tem­po e o ac­er­to cauteloso do dono. Foi por es­sa al­tura que o fil­ho do pro­fes­sor Hu, Kêng Wei, começou a ad­vog­ar nos tri­bunais de Hong Kong. 

  K. W. Hu fo­ra com­pan­heiro de A-​lin na uni­ver­si­dade norte-​amer­icana em que am­bos se for­maram. Havia em Yale uma dezena de es­tu­dantes chi­ne­ses; a raça, a lín­gua, a ed­ucação con­ser­vavam-​nos unidos, co­mo blo­co fecha­do à pen­etração da in­génua al­ma yan­kee. Tu­do aque­les es­píri­tos, ávi­dos de saber e de com­preen­der, as­sim­ilavam, mas na­da con­ce­di­am, fac­eta al­gu­ma da al­ma mul­ti­ssec­ular abri­am ao ol­har con­fi­ado dos Amer­icanos. Er­am fortes porque er­am reser­va­dos e porque rep­re­sen­tavam um enig­ma no mun­do in­cer­to que um es­tadista in­váli­do jul­gou con­duzir pe­los cam­in­hos da can­dura, co­mo se não tivesse si­do pa­ga só com sangue e sofri­men­tos a cus­tosa vitória. 

  Do grupo fecha­do, Kêng Wei era o mais reser­va­do e por­tan­to o mais forte. A fil­ha do mil­ionário e o fil­ho do pro­fes­sor man­tiver­am, no decor­rer dos cur­sos, uma ca­ma­radagem es­tre­ita, que ora se in­cli­na­va para o cam­po amoroso, ora re­cua­va para o ter­reno da es­pec­ulação in­telec­tu­al. O fil­ho do pro­fes­sor Hu não tin­ha for­tu­na; e por de­trás de si via as mul­ti­dões de mis­eráveis que as fomes, as pestes, as in­un­dações e as chaci­nas ceifam no seu país com a im­pla­ca­bil­idade cronométri­ca das coisas que têm de acon­te­cer co­mo o gi­rar dos pon­teiros no reló­gio do tem­po. Não se res­ig­na­va a es­sa im­pla­ca­bil­idade e cria que os novos con­ceitos de justiça so­cial e de plan­ifi­cação económi­ca, im­pos­tos pela chama­da di­tadu­ra do pro­le­tari­ado, pode­ri­am al­ter­ar no mun­do, e es­pe­cial­mente en­tre o seu po­vo, a or­dem de coisas que tor­na­va a mis­éria es­tig­ma obri­gatório de to­dos menos de al­guns. A-​lin per­ten­cia ao re­duzi­do número destes úl­ti­mos; ele con­sid­er­ava-​se de­fen­sor daque­les. Ia procu­ran­do, lenta­mente, atraí-​la para o cam­po das suas ideias. Ela bal­ancea­va en­tre as in­fluên­cias do epi­curis­mo pa­ter­no e do am­bi­ente em que fo­ra cri­ada e as cor­rentes fortes que var­ri­am o mun­do saí­do da guer­ra e mer­gul­ha­do na con­fusão.

  Trans­feri­dos do cenário uni­ver­sitário para a vi­da práti­ca. A-​lin con­sagrou-​se à ad­min­is­tração da for­tu­na, para que rev­el­ou grande tino, e à preparação de eru­di­to catál­ogo da pre­ciosa colecção de arte de que fo­ra a herdeira e de que era a con­tin­uado­ra zelosa. Kêng Wei afir­mou-​se ad­vo­ga­do se­guro na cidade de que os In­gle­ses fiz­er­am o maior en­tre­pos­to com­er­cial do Ori­ente. Porque se fixou em Hong Kong, tão per­to de Macau? Que mó­bil o in­duz­iu a es­col­her aque­la co­mar­ca, en­tre tan­tas que a vas­ta Chi­na lhe ofer­ecia? Se­ria o amor de A-​lin, que da out­ra ban­da do rio das Péro­las, na qui­eta Macau, aguar­da­va o sen­hor e dono a quem faria a dá­di­va da vir­gin­dade e da for­tu­na? ou se­ria a co­biça dos bens al­heios quase ao al­cance da mão? 

  Cer­ca de dois anos decor­ri­dos so­bre o re­gres­so dos dois ao