 Ori­ente cel­ebra­va-​se em Macau, en­tre o es­trale­jar dos pau-​chões e o ressoar forte dos gon­gos, após a tro­ca dos pre­sentes con­duzi­dos em palan­quins, o casa­men­to de A-​lin, a fil­ha do mil­ionário, com Kêng Wei, o fil­ho do filó­so­fo.

  O pro­fes­sor Hu já es­ta­va, a esse tem­po, havia cer­ca tam­bém de dois anos, em Inglater­ra. Man­dou ao fil­ho queri­do e à no­va fil­ha a men­sagem do seu aplau­so e da sua ter­nu­ra. E jun­ta­mente com o pre­sente de núp­cias, en­vi­ou -im­pen­itente eru­di­to -uma poe­sia copi­ada pe­lo seu pun­ho e que o po­eta Wang-​Feng-​Yüan com­pusera no sécul­lo XII da nos­sa era, in­ti­tu­la­da «A ter­ceira lua», apro­pri­ada por­tan­to à da­ta em que o casa­men­to ia ter lu­gar. À ver­são orig­inal chi­ne­sa jun­tou a tradução in­gle­sa, que ele próprio com­pusera nu­ma tarde de in­spi­ração, em Strat­ford, onde meses mais tarde voltaria dom­ina­do por pen­sa­men­tos menos poéti­cos e menos suaves:

  «In May flow­ers fade, and oth­ers come 

  To bloom among the leaves ... » 

  Os noivos vier­am em lua-​de-​mel para a Eu­ropa; não es­col­her­am a via marí­ti­ma, de­masi­ado lon­ga nes­ta era em que os «Con­stel­la­tions» em pou­cas ho­ras lig­am os con­ti­nentes e so­brevoam os mun­dos. Em qua­tro dias fiz­er­am o tra­jec­to de Hong Kong a Lon­dres, em cu­jo aeró­dro­mo de Northolt o vel­ho filó­so­fo os aguar­da­va, para os acom­pan­har a Saint James Court, onde lh­es reser­vara quar­tos. De­pres­sa os anti­gos es­tu­dantes de Yale, sen­hores do id­ioma in­glês co­mo o próprio, se fa­mil­iar­izaram com a cidade ten­tac­ular. O pai de Kêng Wei, de­pois de in­sta­lar os noivos, achou não de­ver per­tur­bar-​lh­es o su­pos­to idílio com a sua pre­sença e re­gres­sou à tran­quil­idade dos tra­bal­hos que nes­sa al­tura prosseguia na veneran­da e ve­tus­ta Uni­ver­si­dade de St. An­drews. 

  A-​lin e o mari­do ficaram soz­in­hos na cap­ital que mais de oito mil­hões de al­mas habitavam, vas­to oceano hu­mano em que am­bos vier­am a soço­brar. 

  Co­mo? Porquê? Am­bos nela perder­am a vi­da, a fil­ha do ar­mador às mãos do mari­do, ele às mãos do car­ras­co. Mas porquê? Qual o mó­bil ex­ac­to do crime? que im­pul­sos con­duzi­ram Kêng Wei ao as­sas­sínio? qual a ver­são ex­ac­ta: a sua ou a do acu­sador públi­co, a sua ou a da acusação par­tic­ular? Só nas ca­madas recôn­di­tas do seu ser psíquico um es­calpelizador de al­mas pode­ria en­con­trar os resí­du­os da ver­dade. Mas a Justiça não tem que es­calpelizar al­mas; bas­ta-​lhe jun­tar as provas dos crimes e aper­tar o nó da cor­da aos en­for­ca­dos. Kêng Wei con­tou a sua «ver­dade»; mas quis for­talecê-​la com tais razões que ninguém, a não ser talvez o próprio pai, o acred­itou.

  A re­con­sti­tu­ição da tragé­dia e dos seus an­tecedentes le­va-​nos a su­por que o par dos recém-​casa­dos viveu em Lon­dres al­gu­mas se­manas de aparente fe­li­ci­dade; A-​lin que­ria de­mor­ar-​se em Inglater­ra para es­clare­cer com os per­itos do British Mu­se­um, os pon­tos ain­da ob­scuros do catál­ogo que pro­jec­ta­va con­sagrar à valiosa colecção de arte chi­ne­sa, e para vi­giar a sua pub­li­cação. 

  Ela deixou, nos meios em que con­viveu –, o cír­cu­lo re­stri­to dos con­ser­vadores do museu, de gente rela­ciona­da com os prob­le­mas de arte, a ro­da dos seus com­pa­tri­otas da Em­baix­ada e de in­gle­ses lig­ados às coisas do Ex­tremo Ori­ente -a lem­brança du­ma ra­pari­ga sin­gu­lar­mente in­teligente, muito agradáv­el no tra­to, gra­ciosa no ve­stir, em que a tradição do tra­je chinês se con­cil­ia­va au­da­ciosa­mente com as lin­has do corte eu­ropeu -gra­ciosa, mas não boni­ta. O mari­d