o pro­duz­iu a im­pressão dum homem con­cen­tra­do e enig­máti­co, co­mo muitos da sua raça, al­iás. Pouco con­ver­sador, rev­ela­va, to­davia, quan­do se en­volvia em de­bates, cer­ta cul­tura e vig­or na ar­gu­men­tação. Não es­con­deu, em raras con­ver­sas, as suas sim­pa­tias marx­is­tas, opostas ao usufru­to de tan­tos bens co­mo aque­les que A-​lin, pe­lo matrimónio, lhe troux­era. 

  Uma man­hã, Kêng Wei, mostran­do-​se muito alar­ma­do, in­for­mou a gerên­cia do ho­tel do de­sa­parec­imen­to da mul­her; tele­fonou para o Con­sula­do do seu país, trans­mitin­do avi­so igual; o côn­sul acon­sel­hou-​o a que fizesse ime­di­ata co­mu­ni­cação à Polí­cia e ofer­eceu-​lhe a as­sistên­cia dum fun­cionário do con­sula­do para o acom­pan­har nos pas­sos que se im­pun­ham, Kêng Wei foi à sede da Scot­land Yard, acom­pan­hado por um em­pre­ga­do do ho­tel e pe­lo rep­re­sen­tante do con­sula­do, dar o alarme so­bre o de­sa­parec­imen­to de A-​lin. Não pôde ofer­ecer por­menores; a mul­her saíra para com­pras na véspera à tarde e não voltara; ele tele­fonara para to­das as pes­soas con­heci­das e não lhe de­sco­bri­ra o ras­tro. Da Scot­land Yard tele­fonaram, por sua vez, para os hos­pi­tais, para a morgue, para as es­quadras de Polí­cia, para to­dos os sí­tios onde a ví­ti­ma dum aci­dente ou dum in­ci­dente pode­ria ter ido parar. Lon­dres es­ta­va sin­gu­lar­mente sossega­da: os mor­tos iden­ti­fi­ca­dos, os doentes, os pre­sos de­vi­da­mente reg­is­ta­dos em fichas onde não havia nomes nem traços de mul­her chi­ne­sa. A Scot­land Yard começou a mover-​se, lenta­mente, e ence­tou, com aque­le homem pe­queno e mus­cu­loso, de ex­pressão cer­ra­da, a lu­ta de argú­cias, o diál­ogo ob­sti­na­do que havia de o con­duzir à for­ca.

  Ver­ifi­ca­do ofi­cial­mente o de­sa­parec­imen­to, a Polí­cia ini­ciou a sua in­ves­ti­gação pe­lo lo­cal que A-​lin habita­va. Do que de­sco­briu e só mais tarde deu con­ta, desta­cou, co­mo provas de sus­peição, os tes­ta­men­tos, de re­cente da­ta, pe­los quais a fil­ha de Siu-​Chan e o mari­do se in­di­cavam co­mo herdeiros uni­ver­sais um do out­ro, e as cader­ne­tas de de­pósi­tos bancários el­evadís­si­mos, em nome da de­sa­pare­ci­da. Er­am doc­umen­tos vul­gares em mão dum casal op­ulen­to; mas aju­davam a com­preen­der o cli­ma em que aque­las duas fig­uras se movi­am. E porque guardara Kêng Wei nu­ma la­ta de taba­co para cachim­bo o cel­ebra­do co­lar de péro­las que o sogro com­prara para a fil­ha quan­do vendera o navio dos mor­tos e tres­pas­sara o negó­cio –, jóia ad­miráv­el que os per­itos, chama­dos a de­por, avaliaram em se­ten­ta mil li­bras? 

  Que havia de es­tran­ho em que um mari­do cuida­doso es­con­desse na sua bagagem as jóias da mul­her? Mas porque se apres­sara ele a in­duzi-​la, tão pouco tem­po decor­ri­do so­bre as núp­cias, a nomeá-​lo herdeiro dos in­úmeros bens a tro­co dos nen­huns que lhe legaria? 


  Os in­ves­ti­gadores não en­con­traram qual­quer mo­ti­vo que ex­pli­cas­se a fu­ga de A-​lin ao mari­do, não se in­cli­naram para a hipótese de rap­to e, com aque­le in­stin­to se­guro que tornou famosa em to­do o mun­do a or­ga­ni­za­ção a que per­ten­ci­am, lo­go pen­der­am para a ideia dum homicí­dio. Em três ou qua­tro dias ou­vi­ram di­ver­sos de­poi­men­tos, os da meia dúzia de pes­soas que po­di­am lançar al­gu­ma luz so­bre o viv­er da de­sa­pare­ci­da após a sua chega­da à Grã-​Bre­tan­ha e so­bre os an­tecedentes do casal. Des­de a primeira ho­ra, sem o rev­elar, con­cen­traram to­das as atenções nos ac­tos e desígnios do homem im­pen­etráv­el, que não procu­ra­va de­spistá-​los cain­do no engano fá­cil de l