h­es apon­tar fal­sas veredas, mas que na­da tam­bém lh­es rev­ela­va do in­escrutáv­el diál­ogo que man­tivera com A-​lin des­de os ban­cos da uni­ver­si­dade, à noite de núp­cias em Re­pulse Bay, após a cur­ta trav­es­sia no fer­ry de Macau para Hong Kong, e à úl­ti­ma refeição na sala de jan­tar re­cata­da de Saint James Court. Anos in­teiros de ca­ma­radagem es­tu­danti­na, de namoro hes­itante, de noiva­do, de vi­da fi­nal­mente em co­mum; tendên­cias dum e doutro, desin­teligên­cias pos­síveis, en­tendi­men­to ou de­sapon­ta­men­to car­nal, o amor da arte, nela, o amor da acção, nele, a tol­erân­cia, nela, a in­tol­erân­cia, nele -tu­do era mis­tério que ele não rev­ela­va. A Polí­cia que in­ves­ti­gasse e cumprisse O seu de­ver; fo­ra ele, es­trangeiro no país, que se di­ri­gi­ra às au­tori­dades, pedin­do auxílio; com­petia a es­tas resti­tuir-​lhe a mul­her ou desven­dar o enig­ma da sua ausên­cia, não era a ele que cabia in­struí-​las so­bre as­pec­tos do seu viv­er e do viv­er de A-​lin, que na­da tin­ham com o ca­so con­cre­to do de­sa­parec­imen­to dela. 

  Ao quar­to dia das in­ves­ti­gações os agentes da Scot­land Yard en­car­rega­dos do ca­so ou­vi­ram o de­poi­men­to du­ma pes­soa que se ap­re­sen­tou vol­un­tari­amente, e com o maior sig­ilo, para prestar al­guns es­clarec­imen­tos que a sua con­sciên­cia não lhe per­mi­tia es­con­der. Tu­do is­so se rev­el­ou mais tarde, no decor­rer do jul­ga­men­to. Trata­va-​se de Mr. Brown, o mais céle­bre per­ito do British Mu­se­um em matéria de porce­lanas do Ori­ente, a cu­ja au­tori­dade A-​lin se en­costara para a preparação do catál­ogo que começara a elab­orar, ain­da garo­ta, com o pai, e por cu­ja pub­li­cação tan­to se em­pen­ha­va. 

  Mr. Brown es­tivera ausente de Lon­dres du­rante uns dias, em serviço da sua es­pe­cial­idade, e fo­ra sur­preen­di­do com a leitu­ra, nos jor­nais, da notí­cia do de­sa­parec­imen­to da sua cliente e dis­cípu­la. Na véspera de par­tir da cap­ital fo­ra procu­rar A-​lin a Saint James Court; subi­ra di­rec­ta­mente para a sale­ta dos aposen­tos de luxo que o casal chinês ocu­pa­va, obe­de­cen­do a in­di­cações que a própria A-​lin pouco antes lhe de­ra pe­lo tele­fone; mas lo­go ver­ifi­cou que fo­ra in­dis­cre­to, pois que no quar­to ao la­do daque­le em que se in­tro­duzi­ra decor­ria aze­da dis­cussão, em que a voz forte de Kêng Wei se so­bre­pun­ha à voz suave e har­mo­niosa que nun­ca mais se faria es­cu­tar, Sem quer­er, ou­viu uma tro­ca de fras­es duras. O seu con­hec­imen­to dos di­alec­tos chi­ne­ses an­da­va quase a par da sabedo­ria em matérias de arte, por na pesquisa das porce­lanas anti­gas, seu es­tu­do e clas­si­fi­cação, ter gas­to, na Chi­na, anos sem con­ta da vi­da já lon­ga, antes de haver atingi­do aque­le grau de peça tam­bém pre­ciosa de museu. E perce­beu dis­tin­ta­mente o mari­do de A-​lin lançar-​lhe, com as­pereza, o anátema mais cru­el de to­dos para o es­píri­to sen­sív­el du­ma chi­ne­sa crente na perenidade das leis que regem a vi­da e a morte: -Si, m'hou cong-​choi! - Hás-​de mor­rer sem teres caixão!

  Mr. Brown es­cutou o pran­to magoa­do de A-​lin, após o in­sul­to que tan­to a de­via ter ofen­di­do; perce­beu que fo­ra muito im­pru­dente em en­trar, sem avi­so, na an­tecâ­mara do casal chinês; de­sceu no­va­mente ao rés-​do-​chão e de lá se fez anun­ciar. Só um quar­to de ho­ra de­pois A-​lin o re­ce­beu; es­ta­va ser­ena, co­mo se na­da de de­sagradáv­el tivesse ocor­ri­do e co­mo se tene­broso pressá­gio não hou­vesse caí­do so­bre ela, lança­do por uma voz que não era de amante, nem de es­poso, e cu­ja dureza feri­ra, para além da parede e da por­ta cer­ra­d