Title: O Navio Negreiro (Tragédia no Mar)
Author: Castro Alves
CreationDate: Thu Jul 23 16:09:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Feb 11 17:00:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  O Navio Ne­greiro (Tragé­dia no Mar)

  Cas­tro Alves

  O Navio Ne­greiro foi ex­traí­do do livro Os Es­cravos.

  © 1997, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-83-9

  Lis­boa, Abril de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

  ***

  O NAVIO NE­GREIRO


I


  'Sta­mos em pleno mar ... Dou­do no es­paço 

  Brin­ca o lu­ar -doura­da bor­bo­le­ta; 

  E as va­gas após ele cor­rem ... cansam 

  Co­mo tur­ba de in­fantes in­qui­eta. 

  'Sta­mos em pleno mar ... Do fir­ma­men­to 

  Os as­tros saltam co­mo es­pumas de ouro ... 

  O mar em tro­ca acende as ar­den­tias, 

  -Con­ste­lações do líqui­do tesouro .. . 

  'Sta­mos em pleno mar ... Dois in­fini­tos 

  Ali se es­tre­itam num abraço in­sano, 

  Azuis, doura­dos, plá­ci­dos, sub­limes ... 

  Qual dos dous é o céu? qual o oceano? ... 

  'Sta­mos em pleno mar ... Abrindo as ve­las 

  Ao quente ar­far das vi­rações mar­in­has, 

  Veleiro brigue corre à flor dos mares, 

  Co­mo roçam na va­ga as an­dor­in­has .. . 

  Donde vem? onde vai? Das naus er­rantes 

  Quem sabe o ru­mo se é tão grande o es­paço? 

  Neste saara os cor­céis o pó lev­an­tam, 

  Ga­lopam, voam, mas não deix­am traço. 

  Bem fe­liz quem ali pode nest'ho­ra 

  Sen­tir deste painel a ma­jes­tade! .. . 

  Em­baixo -o mar ... em cima -o fir­ma­men­to .. . 

  E no mar e no céu -a imen­si­dade! 

  Oh! que doce har­mo­nia traz-​me a brisa! 

  Que músi­ca suave ao longe soa! 

  Meu Deus! co­mo é sub­lime um can­to ar­dente 

  Pelas va­gas sem fim boian­do à toa! 

  Home­ns do mar! Ó rudes mar­in­heiros, 

  Tosta­dos pe­lo sol dos qua­tro mun­dos! 

  Cri­anças que a pro­cela aca­len­tara 

  No berço destes péla­gos pro­fun­dos! 

  Es­perai! ... es­perai! ... deix­ai que eu be­ba 

  Es­ta sel­vagem, livre poe­sia ... 

  Orques­tra -é o mar, que ruge pela proa, 

  E o ven­to, que nas cor­das as­so­bia... 

  Por que fo­ges as­sim, bar­co ligeiro? 

  Por que fo­ges do pávi­do po­eta? 

  Oh! quem me de­ra acom­pan­har-​te a es­teira 

  Que semel­ha no mar -dou­do cometa! 

  Al­ba­troz! Al­ba­troz! águia do oceano, 

  Tu que dormes das nu­vens en­tre as gazas, 

  Sacode as pe­nas, Leviathan do es­paço, 

  Al­ba­troz! Al­ba­troz! dá-​me es­tas asas. 


II


  Que im­por­ta do nau­ta o berço, 

  Donde é fil­ho, qual seu lar? 

  Ama a cadên­cia do ver­so 

  Que lhe en­si­na o vel­ho mar! 

  Can­tai! que a morte é div­ina! 

  Resvala o brigue à boli­na 

  Co­mo golfin­ho veloz. 

  Pre­sa ao mas­tro da mezena 

  Saudosa ban­deira ace­na 

  Às va­gas que deixa após. 

  Do Es­pan­hol as can­tile­nas 

  Re­que­bradas de lan­gor, 

  Lem­bram as moças more­nas, 

  As an­daluzas em flor! 

  Da Itália o fil­ho in­do­lente 

  Can­ta Veneza dor­mente, 

  -Ter­ra de amor e traição, 

  Ou do gol­fo no re­gaço 

  Relem­bra os ver­sos de Tas­so, 

  Jun­to às lavas do vul­cão! 

  O In­glês -mar­in­heiro frio, 

  Que ao nascer no mar se achou, 

  (Porque a Inglater­ra é um navio, 

  Que Deus na Man­cha an­corou), 

  Ri­jo en­toa pá­trias glórias, 

  Lem­bran­do, orgul­hoso, histórias 

  De Nel­son e de Aboukir ... 

  O Francês -pre­des­ti­na­do 

  Can­ta os louros do pas­sa­do 

  E os loureiros do porvir! 

  Os mar­in­heiros He­lenos, 

  Que a va­ga ió­nia criou. 

  Be­los pi­ratas morenos 

  Do mar que Uliss­es cor­tou. 

  Home­ns que Fí­dias tal­hara. 

  Vão can­tan­do 