Title: O Navio Pirata
Author: Vitorino Nemésio
CreationDate: Thu Jul 23 15:36:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Mar 04 13:00:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  O Navio Pi­ra­ta

  Vi­tori­no Nemé­sio

  A pub­li­cação de O Navio Pi­ra­ta, I’m Very Well, Thank You!, e O Ar­quipéla­go dos Pi­ca­paus, ex­traí­dos do livro O Mis­tério do Paço do Mil­hafre, foi gen­til­mente au­tor­iza­da pe­los herdeiros de Vi­tori­no Nemé­sio.

  © 1998, Herdeiros de Vi­tori­no Nemé­sio e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-37-6

  Lis­boa, Janeiro de 1998

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  O NAVIO PI­RA­TA

  Jé Faleiro (con­ta Ma­teus Queima­do) per­ten­cia a uma tri­bo de pescadores do Pi­co que ar­rib­ara à Ter­ceira em tem­pos imemo­ri­ais. Talvez baleeiros, ou sim­ples pescadores fugi­dos às fomes per­iódi­cas daque­la il­ha. A ver­dade é que os Faleiros es­tavam na Pra­ia de raiz, com qua­tro ou cin­co fo­gos es­pal­ha­dos na Ribeira do Mar e cheios de ra­pari­gas casa­do iras, de home­ns maduros e cal­ados, de vel­hos graves que aju­davam à rede e, de per­na en­cruza­da, a ga­locha na pon­ta do meí­to, con­tem­plavam o mar porte iran­do e cus­pin­do.

  Er­am Faleiros, por ma­cho ou fêmea, muitos dos meus com­pan­heiros de ar­ru­aça. E, na ven­da de An­ton­ico Faleiro, ao domin­go, espre­itan­do o renque de quar­til­hos que fazi­am ir e vir as maçãs-​de-​adão aos bebedolas co­mo êm­bo­los no cor­po de uma bom­ba, era à garo­ta­da Faleira que eu de­via os meus maiores re­ga­los es­pir­itu­ais.

  San­to tem­po! An­ton­ico Faleiro deixara a cana do leme pe­lo re­bote; de­pois, o re­bote pela me­di­da de litro. Es­ta­bele­cera-​se. Dizia-​se que fiz­era for­tu­na pas­san­do aos di­re­itos da Alfân­de­ga tabuões ar­rib­ados. E en­tão?! Não se­ria um meio co­mo out­ro qual­quer de en­rique­cer?! Os madeiros per­ten­ci­am a navios de gente de longe, que naufra­gavam no Ban­co. Ali à vista da Il­ha que­bravam seus mas­tros para sem­pre, per­diam o poleame, fi­cavam en­fim umas po­bres car­caças sem gov­er­no. Nós íamos espre­itar al­gum que con­seguia ex­alar o úl­ti­mo sus­piro nos roche­dos da Mameren­da. 

  Era dess­es (oh! ... raros!) que An­ton­ico Faleiro safa­va os es­teios da bor­da­da ou os pranchões da car­ga de f1an­dres, cober­tos de gu­sano e de al­gas mais boni­tas que o pen­tea­do da Rosa do Ca­be­lo Ver­mel­ho, que Deus ha­ja. O navio lá es­ta­va es­ti­ra­do, sem metade de um bor­do, co­mo meia queix­ada de um an­imal do Dilúvio. Um pedaço da mas­treação, teimoso, de vante e em­brul­ha­do num re­tal­ho de pano en­cor­doa­do, ain­da con­ser­va­va àquele lamen­táv­el es­quele­to um pouco da graça e do atre­vi­men­to de um navio. Mas era um ven­ci­do, um cadáver! A trip­ulação de­sa­pare­cera-​lhe da cober­ta co­mo a pop­ulação de uma cidade at­aca­da de peste ne­gra. Um cordão de gaiv­otas de­bi­ca­va-​lhe no cír­cu­lo da água do costa­do. Mas nem is­so! ... A bor­do não havia que com­er. Nem con­ser­va fres­cal nem bi­cho mor­to. 

  Ape­nas cá nós («a garo­ta­da»  - co­mo dizia, verde de cólera, o Samiguel da ven­da, a quem pil­há­va­mos a al­far­ro­ba de saca e os fi­gos de seira, cheios de cas­pa) con­seguíamos des­en­can­tar daque­le cav­er­name de­stroça­do al­gu­ma coisa útil: uma polé in­teira. .. um cachim­bo rata­do ... uma la­ta de cré ... E fazíamos da sua área aban­don­ada pela Alfân­de­ga a cidade fa­tal da nos­sa pi­rataria. 

  -Eh, r'pá!. .. -(E as­so­bio. )

  Um auli­do sus­peito já varou o ar de In­ver­no. A Pra­ia es­tá de­ser­ta; a tem­pes­tade, la­tente. Mi­la­gre é se em calça­da ou pas­seio es­turge um taman­co matuti­no. Mal